Os irmãos negros Deoclécio Augusto de Azevedo e Antônio Augusto de Azevedo eram operários, libertários e professores da Escola Moderna da Liga da Construção Civil, em Niterói-RJ, na década de 1910 e na década de 1920. Notícias dos sindicatos, greves e da escola operária eram publicadas no Boletim da Liga Operária da Construção Civil.
Os dois foram operários da construção civil e representantes da classe em congressos e eventos operários de Niterói e do Rio de Janeiro. Em 1913, estando a frente do Sindicato dos Estucadores e Pedreiros de Niterói, os irmãos Azevedo representaram a classe no 2º Congresso Operário, realizado no Rio de Janeiro. Em 1918, os irmãos foram fundadores da Liga dos Operários da Construção Civil de Niterói. Como professores libertários, Deoclécio e Antônio Augusto de Azevedo defenderam a instrução libertária dos operários como uma das formas de emancipação dos trabalhadores. Os irmãos perceberam que o analfabetismo e o desconhecimento de direitos eram aliados dos patrões.
Em 1921, Deoclécio Augusto de Azevedo (1895-????) publicou no Boletim da Liga Operária da Construção Civil a seguinte afirmação: Uma das causas dessa situação miserável dos trabalhadores é, sem dúvida, a sua falta de instrução (…) obrigados desde a infância a ajudar ou substituir os pais nas obras, fábricas, campos e oficinas, ou pior ainda, forçados a vestirem uma farda que os transformará em cães de fila da burguesia, em defensores deste regi me legal e carrascos dos seus irmãos de sofrimento, nunca chegaram a compreender quais os seus direitos e deveres”. O libertário defendia que a instrução mostraria aos operários a condição de alienação e sofrimento em que estavam metidos, como também mostraria os métodos para a superação deste sofrimento até chegar ao estágio máximo de liberdade, o comunismo anárquico.
Antônio Augusto de Azevedo (1895-????) comungava com o irmão as mesmas ideias. De acordo com Antônio, a instrução seria a via mais importante de organização e emancipação social, e não a via eleitoral: Negue-se, portanto, o povo a votar, deixando assim de servir de comparsa na repugnante comédia eleitoral, mesmo porque, no Brasil o voto do povo nada influi no resultado das eleições, que são feitas unicamente para salvar as aparências e iludir os palpavos.
Os dois irmãos defendiam o sindicalismo revolucionário e o federalismo das associações de classes defendendo que seria: necessário que os trabalhadores se organizem em associações de classe, estas em federações que por sua vez se constituirão em confederações que atravessando as pátrias burguesas e demolindo os marcos que fazendo as fronteiras dividem os povos, vão unir-se aos explorados de todo o globo, formando assim a Internacional dos Trabalhadores, que há de amanhã implantar a verdadeira Liberdade, Igualdade e Fraternidade sobre a Terra!
Em janeiro de 1921, os associados da Liga Operária organizaram um evento operário com o intuito de arrecadar dinheiro para fundar uma escola operária. O evento foi realizado no dia 15 de janeiro e contou com a participação do anarquista José Oiticica, de Grupo Dramático Ismênia dos Santos e da orquestra do Grupo Artístico Renovação, de Santos. O objetivo do festival operário foi alcançado. A escola foi inaugurada em 1 de abril de 1921, na rua São João, N. 95, sob a diretoria do professor maranhense Ruy Gonçalves, seguidor do método racionalista de Ferrer.
Na década de 1930, Antônio Augusto de Azevedo ingressou no PCB. Em março de 1932, ele foi preso discursando em uma praça de Niterói, num comício realizado pela iniciativa antifascista Frente Única e Antiguerreira. Já Deoclécio Augusto de Azevedo continuou anarquista e foi preso algumas vezes, durante o Estado Novo (1937-1945), suspeito de atividades subversivas.
REFERÊNCIAS:
Boletim da Liga Operária da Construção Civil, nº 3, p. 4, abr. de 1921.
Boletim da Liga Operária da Construção Civil, nº 3, abr. de 1921, p. 2.
KARLLOS, Jr. Brasil Negro Insurgente. Ed. Monstro dos Mares. 2026.
MACHADO, Antônio Felipe da Costa Monteiro. Forjas da Liberdade: Educação Operária, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário na Niterói da Primeira República. Rio de Janeiro.2017. UFERJ
RODRIGUES, Edgar. Novos Rumos, p. 214 215
RODRIGUES, Edgar. Alvorada Operária. p. 109 e 139.
CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).