Artigo escrito e concedido ao CCLA por Carlos Ferreira de Araújo Jr – Historiador.
CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Mora em Campina Grande-PB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo no youtube sobre o movimento punk no Norte e no Nordeste: ÔKO DO MUNDO! Tocou em bandas punks libertárias como AERO VENENA, NEKONI, ANGUSTIA NO! Fez parte da Okupação do Cine São José em 2012, na cidade de Campina Grande. O autor também escreve folhetos de cordel e Zines de temáticas libertárias e decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).
03/05/2026
No Brasil, o movimento operário não foi feito apenas por estrangeiros europeus e brancos. Os primeiros historiadores e pesquisadores do mundo do trabalho privilegiaram determinados espaços, sul/sudeste, e determinados atores, imigrantes europeus ou nacionais brancos. Exceção foi Lima Barreto, cuja a militância socialista libertária foi fruto de alguns trabalhos acadêmicos.
Além de Lima Barreto, podemos destacar diversos anarquistas negros e pardos que não despertaram a “curiosidade” de sociólogos e historiadores: José Leandro dos Santos, Domingos Passos, Cândido Costa, Armando Gomes, Canellas, Octávio Brandão, José Lopes “Santa”, João da Costa Pimenta, Gilka Machado, Almerinda Farias Gama, Bruno de Menezes, etc.
Em Belém do Pará, durante as décadas de 1910 e 1920, operárias e operários negros e pardos se destacaram como lideranças: Bruno Menezes, Almerinda Gama e José da Silva Gama.
Almerinda Farias Gama (1899-1999) nasceu em Maceió e aos 8 anos de idade se mudou para Belém do Pará. Foi uma grande intelectual, advogada, escritora, atriz, poliglota, poeta e pianista de intensa produção em quase 100 anos de vida. Ela foi uma ativista anarquista importante do Norte do país bem como o seu irmão, José da Silva Gama, um tipógrafo negro anarquista bastante ativo em Belém. Almerinda Gama proferia palestras libertárias nas reuniões dos operários tipógrafos que ocorriam na residência do seu irmão. No final da década de 1920, Almerinda Gama mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se tornou uma das mais importantes sufragistas do Brasil.
José da Silva Gama foi um tipógrafo libertário, nascido em 1892 em Maceió. Foi viver em Belém ainda criança. Na capital do Pará, Silva Gama se tornou um grande orador e militante libertário. Sua casa serviu muitas vezes como local para reuniões dos tipógrafos. O operário foi segundo-secretário da Associação Tipográfica, em 1918, e secretário-geral da Associação das Artes Gráficas, em 1920. Silva Gama fez parte de grupos de propaganda e atividades anarquistas de Belém, como os grupos Os Semeadores e Aurora Libertária, além de ter colaborada para a imprensa operária da capital nos periódicos O Semeador e A Voz do Trabalhador.
Durante o Terceiro Congresso Operário (1920) organizado pela C.O.B., no Rio de Janeiro, os operários do Pará foram representados por José da Silva Gama e por João Plácido de Albuquerque. Ao chegarem na capital, os dois anarquistas foram presos como indesejáveis e levados para uma delegacia. O operário cigarreiro João Plácido de Albuquerque, passou mal e foi enviado a enfermaria da prisão. Ele morreu horas depois. Silva Gama e os anarquistas reunidos no Rio de Janeiro denunciaram que Plácido de Albuquerque havia morrido por conta dos maus tratos e do ambiente degradante no qual o operário havia sido metido. José da Silva Gama deixou a militância na década de 1920.
Por fim, o escritor, operário, jornalista e professor anarquista Bruno de Menezes (1893-1963) nasceu em Belém do Pará. Seu nome completo: Bento Bruno de Menezes Costa. Nasceu e cresceu no bairro do Jurunas. Como escritor
foi membro da Academia Paraense de Letras. Fez parte de grupos de vanguarda literária na capital, como o Vândalos do Apocalipse e a Academia do Peixe Frito. Fundou e escreveu para revistas literárias, como a Belém Nova. Suas primeiras poesias narravam a vida dos operários de Belém. Nos anos de 1930, a africanidade foi o tema central de diversos livros seus como o Batuque (1931).
Bruno de Menezes trabalhou como encadernador e também como livreiro. O contato com livros e autores anarquistas/comunistas influenciou a militância e a poesia de Bruno de Menezes. Ele leu Gorki, Bakunin, Kropotkin, Marx, Proudhon e Tolstói. O escritor se tornou anarquista. Foi professor da Escola Racional Francisco de Ferrer fundada por libertários na capital do Pará. Como periodista, o poeta colaborou com os jornais operários O Semeador e A Voz do Trabalhador. Menezes também integrou o grupo de propaganda e ação libertária Os Semeadores.



REFERÊNCIAS:
BRAGA, Marcos Lucas Abreu. Trabalhadores de Belém, uni-vos: anarquismo e sindicalismo revolucionário no estado do Pará (1912-1932). Revista Faces de Clio | Dossiê Anarquismo(s) em Perspectiva. Universidade Federal de Juiz de Fora | e-ISSN: 2359-4489 | v. 11 n. 20 (2024).
_____________________________. De Belém do Pará ao Rio de Janeiro: trajetórias de militantes operários por meio dos jornais digitalizados. Revista de fontes, v. 10, n. 19–Guarulhos, dez. de 2023–ISSN 2359-2648131.
FIGUEIREDO, Aldrin Moura de. Rubra Poesia. Bruno de Menezes. Anarquista (1913-1923).
FONTES, Edilza Joana Oliveira. Preferem-se portugues(as)” : trabalho, cultura e movimento social em Belém do Para (1885-1914). Campinas -SP. 2002. TESE.
GAMA, Almerinda Farias [85 anos]. [jun. 1984]. Entrevistadores: Angela Maria de Castro Gomes e Eduardo Stotz. Rio de Janeiro, RJ, 8 jun. 1984.
KARLLOS, Jr. Brasil Negro Insurgente: socialistas e libertários negros no Brasil durante a Primeira República. Ed. Monstro dos Mares. 2025.