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RELATO RECEBIDO DE UMA CAMARADA NO IRÃ

A situação no Irã é crítica.
Os preços subiram de forma descontrolada.
O acesso à internet internacional tornou-se mais difícil.
A insegurança e a repressão estatal são generalizadas, e os postos de bloqueio das milícias estão presentes em grande número nas cidades.
As sentenças injustas contra os presos aumentaram.
A sociedade, após a guerra e sob um frágil cessar-fogo, encontra-se em um estado de suspensão, e as atividades econômicas estão fechadas ou operam em meio período.
As organizações de apoio e a maioria das ONGs fecharam.
Uma reportagem de campo sobre as manifestações pró-governo de propaganda da República Islâmica
Aqueles nossos concidadãos que não são zumbis — mas que não nos querem vivos:
A pedido de alguns apoiadores do governo atualmente no poder no Irã, participo dessas manifestações em Teerã.
Eles me dizem: você precisa vir ver pessoalmente e, na medida do possível, escrever um relato independente.
Um deles acrescenta que, para participar dessas manifestações islâmicas, não é necessário cobrir os cabelos.
Estamos aqui reunidos por uma causa nacional, afirmam, e, naturalmente, também pessoas que pensam e se vestem como você serão aceitas.
Decido, então, ir com uma aparência que considero “normal” — uma aparência que, no entanto, do ponto de vista legal, ainda é considerada um crime.
Esta reportagem foi realizada entre 20h e 23h, aproximadamente, nas proximidades da Praça Enghelab, em Teerã.

O trajeto
Dentro do trem, encontro mulheres e homens de todas as idades que, com a bandeira da República Islâmica nas mãos, se dirigem para a manifestação.
A maioria das mulheres está completamente velada, usa o chador e, além disso, cobre o rosto com máscaras escuras: tanto máscaras médicas quanto véus integrais. Lembro que, durante anos, as mulheres religiosas no Irã fizeram um uso menor do véu integral e, em geral, não compreendo essa tendência crescente de cobrir o rosto. Muitos homens também usam máscaras.
Os rostos das crianças, por outro lado, estão visíveis. Muitas usam faixas na cabeça — faixas em apoio ao Hezbollah no Líbano e a Mojtaba Khamenei.
Ouvi dizer dos opositores do governo que muitos participantes seriam estrangeiros. Escuto atentamente as línguas e os sotaques, mas não ouço nada que não seja persa. As pessoas sentadas à minha frente são, de fato, nossos compatriotas e concidadãos.
As mulheres são claramente mais numerosas do que os homens. Entre elas, destacam-se sobretudo mulheres idosas e meninas jovens; as pessoas de meia-idade estão menos presentes. Alguns vieram com amigos ou familiares, outros provavelmente por meio das bases do Basij, uma organização territorial ligada ao governo encarregada da propaganda e da mobilização contra movimentos políticos e sociais.

Atmosfera e percepção
Observando os rostos daqueles que estão à minha frente, percebo uma espécie de hostilidade em relação a mim devido à minha aparência e à minha identidade. Talvez seja um preconceito.
Não consigo ler a mente das pessoas, nem posso afirmar que sou completamente neutra ou desprovida de orientação política. Eu também sou um ser humano, uma cidadã laica, e minha percepção dos religiosos fiéis ao sistema é influenciada por experiências passadas. No entanto, naquele momento, essa é a sensação que tenho.
Olhando melhor, vejo uma mulher tentando esconder sua bandeira sob o chador.
Tudo isso me parece, em parte, incomum. Me vem a mente que esse grupo talvez tenha menos segurança individual e talvez tema outra parte da sociedade. Talvez seja por isso que cobrem seus rostos.
Tento assumir uma postura mais “religiosa” e sorrir, para não parecer ameaçadora. A mulher sentada à minha frente evita meu olhar.

Na manifestação
Chegamos à estação e nos dirigimos para a saída junto com dezenas de outros apoiadores do governo. Ao longo do caminho, noto também um homem e uma mulher negros com bandeiras do Hezbollah. Presumo que possam ser estudantes estrangeiros, talvez de ciências religiosas ou médicas — uma presença nada incomum no Irã. São os únicos não iranianos que vejo naquela noite.
Em frente ao metrô, um homem vende bandeiras da República Islâmica. Isso contradiz a ideia de que todas as despesas para tais eventos seriam arcadas pelo governo. Embora o Estado invista muito em propaganda, essas manifestações parecem, em parte, também financiadas pelos participantes.
Cada bandeira custa cerca de 180.000 tomans. Penso em comprar uma para me misturar melhor na multidão, mas então me lembro que não desejo contribuir voluntariamente para tais estruturas. Será que consigo realmente ser completamente neutra?
Lembro-me de que esse sistema me obrigou, durante dois anos, a trabalhar sem salário para evitar a prisão e que exigia dinheiro das famílias para devolver os corpos dos manifestantes mortos. Decido, então, não comprar a bandeira.

Atividades de propaganda
Ao longo da rua, há barracas montadas para atividades de propaganda e recreação. Por exemplo, é possível escrever uma mensagem para as crianças mortas na guerra entre Israel e a República Islâmica e receber em troca uma caneta como lembrança. Em outro local, um homem entoa cantos religiosos enquanto outro discursa para a multidão.
Enquanto observo, um homem na casa dos sessenta se aproxima por trás e, em tom autoritário, me diz:
“Puxe o véu para a frente e cubra os cabelos.”
Em seguida, ele se afasta rapidamente.
As forças armadas estão presentes para garantir a segurança, mas não questionam minha maneira de me vestir.
O que as autoridades toleram, os apoiadores não conseguem aceitar: eles precisam de maior conformidade.

Aceitação e exclusão
Provavelmente me consideravam uma apoiadora do governo. Mas será que eles realmente poderiam aceitar uma pessoa laica, mesmo como aliada?
Para muitos deles, a resposta parecia ser um não categórico.
Para essas pessoas, o apoio ao sistema não é apenas político: está profundamente ligado à sua visão de mundo, ao seu estilo de vida e à sua cultura.
Eles podem tolerar um opositor silencioso, que não demonstre sinais externos de dissidência.
Mas não aceitam quem vive ou se veste de maneira diferente.
A República Islâmica tenta transmitir a ideia de que pessoas com estilos de vida diferentes apoiam o sistema, mas, em sua essência, ele se baseia na exclusão — na distinção entre “nós” e “eles”, entre amigos e inimigos.

Nuances
Dito isso, nem todas as interações foram hostis. Alguns, especialmente mulheres mais jovens, mostravam-se abertos e flexíveis. Muitas crianças eram sinceramente afetuosas.
Independentemente das opiniões políticas, todos compartilhamos a responsabilidade pelo futuro dessas crianças: garantir-lhes oportunidades iguais e não fazê-las pagar pelas escolhas alheias.

Motivações
Não observei distribuição de dinheiro ou alimentos caros, ao contrário do que afirmam alguns opositores.
Essas pessoas não participam principalmente por incentivos materiais, mas para defender suas convicções, seu estilo de vida e os benefícios que daí decorrem — benefícios que muitas vezes percebem como direitos naturais.
É possível imaginar uma situação semelhante a uma empresa que contrata apenas pessoas de olhos azuis. Com o tempo, essas pessoas se convencem de que tal característica está ligada ao mérito e consideram seu privilégio um direito.
Os apoiadores do governo encontram-se em uma posição análoga.
Eles também acreditam sinceramente estar defendendo seu país. À sua maneira, amam o que chamam de Irã. Alguns perderam familiares nos conflitos recentes: estão de luto e desejam vingança.

Slogans e visão do futuro
Os slogans mais comuns eram contra os opositores da Guia Suprema, os Estados Unidos e Israel.
Entre a multidão, ouvi gritos: “Morte aos inimigos da Guia Suprema.”
Em essência, eles clamavam pela morte de pessoas como eu.
Se eu tivesse declarado abertamente minha posição, eles poderiam ter me feito mal?
Acho que sim.
Eles estavam furiosos e pareciam ouvir apenas a si mesmos.
Perguntei a um deles como ele via o futuro.
Ele respondeu: “Conquistaremos a Arábia Saudita e iremos para Meca.”
Quando perguntei sobre o presente, ele disse:
“A situação está boa, embora haja um pouco de corrupção. Quando o Mahdi aparecer, as coisas vão melhorar.”
Na ausência de uma visão concreta e realista do futuro, eles gritam em direção à abstração.

Conclusão
Depois de voltar, entreguei esta reportagem à pessoa que me encorajou a ir.
Ele me perguntou por que eu não tinha comprado uma bandeira.
Respondi que o vendedor apoiava o sistema.
Ele disse que talvez seja assim, mas que a responsabilidade moral deve ser definida com precisão: será que é realmente a mesma para todos?
Acredito que todos precisamos que nossos sofrimentos e nossos direitos sejam reconhecidos — e, depois, de justiça.
E para isso é necessária uma compreensão mais profunda.
Por isso é importante observar os outros com atenção e evitar simplificações e narrativas enganosas.
Talvez seja justamente essa uma tarefa que ainda vale a pena realizar.

Fonte: relatório encontrado no Telegram, na rede da Anarchist Front do Irã.