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Erich Mühsam e a atualidade do anarquismo comunista: um texto para os territórios de luta

Em 1932, às vésperas da ascensão nazista e em meio ao colapso econômico da Alemanha, Erich Mühsam escreveu uma das sínteses mais contundentes do anarquismo comunista. Seu texto, nascido sob censura e perseguição, não é apenas um documento histórico: é uma ferramenta viva para compreender como capitalismo, Estado e moralidade se entrelaçam na produção da desigualdade. Ao reler Mühsam desde os territórios periféricos e amazônicos, descobrimos não um tratado distante, mas um espelho das lutas atuais — e um convite urgente à construção de formas de vida baseadas na liberdade, na igualdade de direitos e na autogestão.

O CCLA produziu um vídeo baseado na leitura do texto, vídeo publicado na Kolektiva Media:

A publicação de A Libertação da Sociedade do Estado (1932), de Erich Mühsam, emerge de um momento histórico marcado por colapso econômico, ascensão fascista e repressão sistemática às organizações libertárias. O texto nasce como resposta à proibição da revista Fanal e como tentativa de condensar, em linguagem acessível, os fundamentos do anarquismo comunista. No entanto, sua relevância ultrapassa o contexto alemão da República de Weimar. Para nós, que atuamos em territórios periféricos, amazônicos e marcados por desigualdades estruturais, Mühsam oferece uma chave de leitura poderosa para compreender a relação entre capitalismo, Estado, moralidade social e a construção de alternativas comunitárias.

Este artigo busca analisar criticamente os principais eixos do texto de Mühsam, articulando-os com desafios contemporâneos enfrentados por movimentos populares, coletivos autogestionários e iniciativas de construção de economias comuns. A intenção não é apenas interpretar Mühsam, mas colocá-lo em diálogo com práticas vivas de resistência e criação social, como aquelas que o CCLA acompanha e fomenta.

1. O contexto da escrita: crise, fascismo e a urgência da liberdade

Mühsam escreve em 1932, quando a Alemanha atravessava uma crise econômica devastadora. A falência de bancos, o desemprego em massa e a paralisia do Estado criavam um terreno fértil para o avanço do fascismo. A repressão à imprensa libertária, como a proibição da Fanal, não era um detalhe administrativo, mas parte de uma estratégia de silenciamento das vozes que denunciavam a convergência entre capital financeiro, elites agrárias e aparato estatal.

A análise de Mühsam parte de uma constatação fundamental: o Estado, em momentos de crise, não se torna mais democrático, mas mais autoritário. Ele se reorganiza para proteger os interesses das classes dominantes, mesmo que isso implique sacrificar direitos, liberdades e vidas. Essa percepção ecoa de forma inquietante em contextos contemporâneos, especialmente em regiões onde o Estado aparece simultaneamente como ausente e violento — como nas periferias urbanas e nas fronteiras amazônicas.

A crise, para Mühsam, não é apenas econômica, mas moral e espiritual. Ela revela a falência de um modelo de sociedade baseado na desigualdade, na exploração e na naturalização da autoridade. Por isso, a resposta libertária não pode ser apenas técnica ou administrativa: ela precisa ser ética, comunitária e profundamente transformadora.

2. O anarquismo como doutrina da liberdade integral

Mühsam define o anarquismo como a doutrina da liberdade total — não a liberdade abstrata, mas a liberdade concreta, vivida, compartilhada. A anarquia, diz ele, significa literalmente “sem domínio”, e não “sem ordem”. Trata-se de uma ordem social fundada na autonomia, na cooperação e na igualdade de direitos.

Essa definição é crucial para desfazer um dos equívocos mais persistentes sobre o anarquismo: a ideia de que ele seria sinônimo de caos. Para Mühsam, o caos é justamente o que o capitalismo produz — desordem moral, desigualdade, violência estrutural. A anarquia, ao contrário, é a tentativa de reconstruir a vida social a partir da liberdade e da responsabilidade coletiva.

O autor insiste que não há anarquismo sem comunismo, porque a liberdade individual só pode existir quando todos têm acesso igual aos meios de vida. A propriedade privada dos meios de produção, ao concentrar poder e riqueza, destrói a possibilidade de liberdade real. Por isso, o anarquismo comunista não é uma fusão artificial de duas doutrinas, mas a expressão coerente de uma mesma ética: a liberdade só floresce na igualdade, e a igualdade só se sustenta na liberdade.

3. Comunismo libertário e a crítica ao individualismo burguês

Mühsam dedica parte significativa do texto a criticar o individualismo extremo, que ele identifica como uma forma de cegueira social. Para os individualistas radicais, a liberdade seria a capacidade de cada um impor sua vontade ao mundo, sem considerar a coletividade. Essa visão, segundo ele, reproduz a lógica burguesa da competição e da propriedade.

O anarquismo comunista, ao contrário, parte da constatação de que o ser humano é um ser social. Não existe indivíduo isolado; existe pessoa em relação. A liberdade, portanto, não é um atributo privado, mas uma construção coletiva. “Ninguém pode ser livre enquanto todos não forem”, afirma Mühsam, antecipando formulações que décadas depois seriam retomadas por pensadores comunitaristas e por movimentos de base.

Essa crítica ao individualismo é especialmente relevante para contextos amazônicos, onde a vida comunitária, a reciprocidade e a interdependência com o território são elementos centrais das cosmologias e práticas sociais. A defesa da autonomia não pode ser confundida com isolamento; ela implica responsabilidade mútua e cuidado coletivo.

4. Socialismo como valor moral, não apenas estrutura econômica

Um dos pontos mais originais da obra é a crítica de Mühsam ao materialismo histórico marxista. Ele não rejeita a análise econômica, mas recusa a ideia de que a transformação social possa ser reduzida a mudanças nas forças produtivas. Para ele, o socialismo é antes de tudo um valor moral: a afirmação da igualdade de direitos, da justiça e da dignidade humana.

Essa posição não é idealista, mas profundamente política. Mühsam argumenta que o capitalismo só se sustenta porque produz uma moralidade que naturaliza a desigualdade. A exploração não é apenas um fato econômico; é um hábito mental, uma pedagogia da submissão. Por isso, a luta socialista precisa ser também uma luta cultural, educativa e espiritual.

Essa crítica ressoa fortemente em territórios onde o capitalismo se impõe não apenas pela força econômica, mas pela destruição de modos de vida, saberes e vínculos comunitários. A luta pela terra, pela água, pela floresta e pela autonomia é inseparável da luta por uma ética da igualdade e da solidariedade.

5. A desigualdade como injustiça, não como diferença

Mühsam distingue com precisão dois conceitos frequentemente confundidos: igualdade e igualitarismo. A igualdade que ele defende não é a homogeneização das pessoas, mas a criação de condições para que cada um desenvolva suas capacidades de forma plena. A desigualdade que importa não é a diferença entre indivíduos, mas a injustiça que impede o florescimento de uns para garantir o privilégio de outros.

Essa distinção é fundamental para movimentos que atuam em contextos de diversidade cultural, étnica e territorial. A igualdade libertária não apaga diferenças; ela as protege, garantindo que nenhuma seja usada como justificativa para opressão. Em territórios amazônicos, isso significa reconhecer que a luta por igualdade passa necessariamente pela defesa da pluralidade de modos de vida e pela recusa de modelos únicos de desenvolvimento.

6. A crítica ao materialismo histórico e a defesa da consciência social

A crítica de Mühsam ao marxismo não é superficial. Ele reconhece a importância da análise econômica, mas denuncia o risco de transformar o materialismo histórico em dogma. Para ele, a consciência humana não é determinada exclusivamente pelas condições materiais; ela é também moldada por valores, afetos, vínculos e experiências espirituais.

Essa posição abre espaço para uma concepção de socialismo que não se limita à reorganização da produção, mas que busca transformar as relações humanas em sua totalidade. A consciência social — a capacidade de distinguir o justo do injusto — é um elemento central dessa transformação. Ela não é um luxo intelectual, mas uma necessidade vital para a construção de sociedades livres.

7. A responsabilidade individual como fundamento da liberdade coletiva

Um dos trechos mais fortes do texto é a análise da origem da escravidão econômica. Para Mühsam, o capitalismo só se tornou possível porque os trabalhadores foram levados a renunciar ao controle sobre sua própria força de trabalho. Essa renúncia — imposta pela violência, pela fome ou pela manipulação — é a base da servidão moderna.

A libertação, portanto, exige recuperar a responsabilidade individual. Não no sentido liberal de “cada um por si”, mas no sentido libertário de “cada um responsável pelo todo”. A autogestão, nesse contexto, não é apenas um método administrativo, mas uma ética da participação ativa, da corresponsabilidade e da autonomia.

Essa perspectiva dialoga diretamente com práticas de economia solidária, cooperativismo popular e construção de comuns que emergem em territórios periféricos e amazônicos. A autogestão não é um ideal distante, mas uma prática cotidiana que reconstrói a dignidade e a capacidade de ação coletiva.

8. A atualidade de Mühsam para os territórios de luta

A leitura de Mühsam, hoje, não é um exercício acadêmico. É uma ferramenta de análise e ação. Em territórios onde o Estado aparece como instrumento de violência, onde o capitalismo avança sobre corpos e territórios, e onde a desigualdade se reproduz como destino, o anarquismo comunista oferece uma alternativa radical e concreta.

A crítica à autoridade, a defesa da igualdade de direitos, a centralidade da ajuda mútua, a valorização da consciência social e a aposta na autogestão são elementos que dialogam diretamente com experiências de resistência e criação social na Amazônia e em outras periferias do mundo.

Mühsam nos lembra que a luta pela liberdade não é apenas contra estruturas externas, mas contra hábitos mentais, moralidades impostas e formas de vida que naturalizam a opressão. A libertação da sociedade do Estado é também a libertação da sociedade de si mesma — de seus medos, de suas hierarquias internalizadas, de suas crenças na inevitabilidade da dominação.

9. Mühsam como ferramenta para o presente

Erich Mühsam não oferece um programa fechado, mas um horizonte ético e político. Sua obra é um convite à ação, à reflexão e à construção coletiva. Para o CCLA, sua leitura reforça a importância de articular teoria e prática, pensamento e território, crítica e criação.

A libertação da sociedade do Estado não é um evento futuro, mas um processo contínuo, tecido nas relações cotidianas, nas práticas comunitárias, nas formas de cuidado e nas estruturas autogestionárias que construímos. Mühsam nos oferece não apenas uma crítica ao capitalismo e ao Estado, mas uma afirmação da potência humana de criar mundos novos.

Em tempos de crise ecológica, violência estatal e avanço de projetos autoritários, sua voz ressoa como um chamado urgente: a liberdade não se espera, se constrói. E essa construção começa onde estamos — nos territórios, nas comunidades, nas relações que escolhemos cultivar.