Num mundo em que velhos impérios renascem com novas bandeiras e as guerras voltam a ser vendidas como “defesa da civilização”, reler Shūsui Kōtoku é mais do que um exercício histórico: é um ato de lucidez política. Em 1901, ele denunciou o patriotismo como superstição, o Estado como máquina de guerra e o imperialismo como engrenagem global de exploração. Um século depois, suas palavras continuam a iluminar — e a ferir — porque o monstro que ele descreveu não desapareceu. Apenas mudou de pele.
O CCLA realizou uma leitura em vídeo desse texto que você pode acompanhar aqui:
Por que reler Kōtoku em tempos de novas guerras e velhos impérios
Há textos que pertencem ao seu tempo. Há textos que o ultrapassam. E há textos que, escritos há mais de um século, parecem ter sido redigidos ontem — ou amanhã. Imperialismo: Monstro do Século XX, de Shūsui Kōtoku, pertence a essa última categoria.
Publicado em 1901, quando o Japão celebrava sua entrada triunfal no clube das potências imperialistas, o panfleto de Kōtoku é uma denúncia feroz da máquina de guerra moderna, da manipulação do patriotismo e da lógica predatória que sustenta os Estados expansionistas.
Reler Kōtoku hoje, em um mundo marcado por guerras “preventivas”, ocupações “humanitárias”, sanções econômicas devastadoras e disputas tecnológicas travadas como batalhas silenciosas, é reler a anatomia do poder. É compreender como o imperialismo muda de forma, mas não de essência. É reconhecer que o monstro do século XX não morreu: apenas se adaptou ao século XXI.
O Japão Meiji: modernização acelerada, militarização profunda
A Restauração Meiji transformou o Japão em um Estado moderno, industrializado e centralizado. Mas essa modernização não foi um processo neutro: ela se apoiou em três pilares que moldariam o destino do país por décadas:
- a militarização da sociedade, com o serviço militar obrigatório e a criação de uma marinha de guerra moderna;
- o nacionalismo estatal, baseado no culto ao imperador e na ideia de missão civilizadora;
- a expansão territorial, vista como condição para o reconhecimento internacional.
A vitória sobre a China em 1895 e a anexação de Taiwan inauguraram a era imperial japonesa. A guerra contra a Rússia, poucos anos depois, consolidaria o país como potência militar.
Kōtoku observa essa transformação com horror. Para ele, o Japão não estava entrando na modernidade: estava entrando no inferno político que já consumia as potências europeias.
Patriotismo: a superstição que alimenta a máquina de guerra
A crítica mais devastadora de Kōtoku é dirigida ao patriotismo. Ele o descreve como uma superstição política — uma crença irracional que serve para manipular as massas e justificar a violência estatal.
O patriotismo não nasce da compaixão, mas da exclusão
Se o patriotismo fosse uma extensão da empatia humana, ele seria universal. Mas o patriotismo real é seletivo: ama apenas os de dentro e despreza os de fora.
É um amor condicionado, incapaz de universalidade, e portanto incapaz de moralidade.
O patriotismo nasce do ressentimento, não da virtude
Kōtoku desmonta a psicologia patriótica com precisão cirúrgica. Para ele, o amor à pátria muitas vezes nasce:
- da frustração pessoal,
- da nostalgia idealizada,
- da dificuldade de viver no estrangeiro,
- da vaidade de exibir sucesso ao retornar à terra natal.
O patriotismo, assim, não é uma virtude: é uma reação emocional primária, frequentemente ligada ao ressentimento.
O patriotismo é um instinto animal travestido de ideal
O autor vai além: o patriotismo é um instinto tribal, herdado de sociedades primitivas e comportamentos animais.
Grupos se unem contra um inimigo comum; a unidade é apenas o outro lado da hostilidade.
Essa análise antecipa debates contemporâneos sobre psicologia das massas, polarização e construção do inimigo.
O imperialismo como exploração organizada: quando o Estado transforma vidas em combustível
Para Kōtoku, o imperialismo é a consequência lógica da combinação entre patriotismo, militarismo e interesses econômicos. Ele não é um acidente histórico, mas uma política deliberada.
O povo luta, as elites lucram
A história romana serve como exemplo: os pobres lutam nas guerras, os ricos comandam e lucram.
Ao retornar, os soldados encontram dívidas, miséria e servidão.
O patriotismo é o mecanismo que convence os pobres a morrerem por interesses que não são os seus.
A “união sagrada” como suspensão da crítica
Kōtoku analisa também o caso inglês durante as guerras contra a França. A crítica política foi silenciada, opositores foram chamados de traidores e a guerra se tornou justificativa para repressão interna.
Esse padrão — a união nacional em tempos de guerra — é um dos pilares do imperialismo moderno.
O Japão Meiji como laboratório do patriotismo autoritário
O autor dedica parte significativa do texto a denunciar casos concretos de perseguição política no Japão Meiji:
- professores expulsos por não reverenciarem o Decreto Imperial de Educação;
- intelectuais punidos por questionarem mitos nacionais;
- ministros atacados por defenderem currículos cosmopolitas.
O patriotismo aparece como instrumento de censura, controle ideológico e repressão intelectual.
A atualidade de Kōtoku: o século XXI ainda é o século XX
O patriotismo como ferramenta contemporânea de manipulação
No século XXI, a crítica de Kōtoku ressoa com força. Em diferentes países, discursos nacionalistas são usados para:
- justificar guerras,
- perseguir dissidentes,
- militarizar políticas públicas,
- expandir fronteiras econômicas sob o nome de “interesse nacional”.
O imperialismo muda de forma, mas não de lógica.
Novas formas de imperialismo: o império sem bandeira
Se o imperialismo territorial perdeu força, emergiram outras modalidades:
- financeiro,
- tecnológico,
- informacional,
- energético.
Hoje, o império não precisa ocupar territórios: basta controlar fluxos, dados, moedas, redes, plataformas, cadeias logísticas.
Kōtoku não poderia prever essas formas, mas sua crítica estrutural ao poder imperial permanece válida.
O Estado como máquina de guerra permanente
A obra antecipa reflexões posteriores de autores como Kropotkin, Tolstói, Rosa Luxemburgo, Fanon e Arendt.
Todos eles, à sua maneira, identificaram o Estado moderno como produtor de violência organizada.
Quando o monstro muda de pele, mas não de fome
Imperialismo não é apenas um panfleto antimilitarista. É um diagnóstico precoce de uma doença política que atravessou o século XX e continua viva no XXI.
Kōtoku nos lembra que o patriotismo não é uma virtude, mas uma construção ideológica que serve para justificar guerras, silenciar dissidências e transformar cidadãos em instrumentos de poder.
Sua alternativa — um internacionalismo ético baseado em compaixão universal, justiça social e igualdade entre povos — permanece como horizonte possível, ainda que distante.
E talvez seja justamente isso que torna sua obra tão perturbadora: ela nos obriga a reconhecer que o “monstro do século XX” não morreu. Apenas aprendeu a falar novas línguas, vestir novos uniformes e operar com novas tecnologias.
Mas sua fome continua a mesma — e sua sombra continua sobre nós.