Esse texto foi escrito por Hasse-Nima Golkar da Frente Anarquista do Irã e de um ponto de vista anarcossindicalista.
Um dos piores carrascos do mundo, que ganhou destaque em relação ao protesto reacionário e islâmico contra a chamada “Revolução Branca” do Xá (5 de junho de 1963), foi o aiatolá Khomeini. Ele foi forçado ao exílio — primeiro na Turquia, em novembro de 1964, depois no Iraque, em outubro de 1965, e finalmente em Paris, na França, em 1978.
Em 1º de fevereiro de 1979, ele retornou ao Irã com base em falsas promessas, mentiras e posições sociopolíticas hipócritas. Pouco depois, em 11 de fevereiro de 1979, ele tomou o poder estatal autoritário e fascista. Desde então, o Irã entrou em um túnel ainda mais escuro e permanece, até hoje, em condições socioeconômicas, políticas e culturais muito piores.
O regime dos Pahlavi caiu, mas seus fundamentos capitalistas de exploração — juntamente com seus instrumentos, como prisões, torturas, assassinatos, execuções, roubos e saques — permaneceram em grande parte intactos. O domínio monárquico de 2.500 anos entregou seu Trono do Pavão ao califado islâmico de 1.400 anos. Dessa forma, tomou forma em todo o país um desenvolvimento regressivo e profundamente contraditório.
Um movimento de protesto popular e fundamentalmente não religioso, nascido nos subúrbios e bairros pobres de Teerã em meados da década de 1970, surgiu gradualmente. No entanto, esse movimento acabou se desviando e se transformou no que mais tarde foi definido como “revolução islâmica xiita”.
A chamada “Revolução Islâmica” de 1979 não foi, na realidade, uma libertação popular, mas uma clássica transferência de poder, em que uma elite autoritária substituiu outra. Sob slogans de justiça, moralidade e anti-imperialismo, uma vasta revolta social foi desviada por um movimento reacionário e teocrático liderado por detentores do poder religioso com ambições de controle total.
O descontentamento com a ditadura do Xá era real e profundamente enraizado. Dizia respeito à repressão política, à injustiça social, à violência do Estado e a uma sociedade em que o poder era extremamente centralizado e o povo reduzido a súditos. Trabalhadores, estudantes, mulheres, minorias étnicas e grupos de esquerda participaram dos protestos na esperança de liberdade, autodeterminação e uma vida além do terror do Estado. No entanto, essas aspirações foram rapidamente traídas.
A liderança religiosa, há muito em conflito com o projeto de secularização do xá, aproveitou a energia da revolta para legitimar sua tomada do poder. Por meio de retórica populista, construção de mitos e falsas promessas de democracia e justiça social, foi instaurada uma nova forma de opressão, desta vez mascarada por uma ideologia religiosa.
De uma perspectiva anarquista, não se tratou de uma revolução, mas de uma contrarrevolução. O Estado não foi abolido, mas reforçado. As hierarquias não foram desmanteladas, mas consolidadas. A opressão não cessou, foi reorganizada. O novo Estado islâmico rapidamente se tornou um instrumento de violência sistemática: execuções, encarceramentos, censura, apartheid de gênero e perseguição de dissidentes foram institucionalizados na lei e na vida cotidiana.
Particularmente brutal foi a destruição dos movimentos auto-organizados. Conselhos operários, coletivos estudantis, grupos de mulheres e organizações autônomas de esquerda foram reprimidos porque representavam uma ameaça direta ao poder centralizado. Onde quer que as pessoas começassem a organizar suas vidas sem o Estado, o partido ou a autoridade religiosa, o regime respondia com violência.
Desde 1979, o Irã é refém de um sistema que se alimenta do medo, da obediência e do controle ideológico. Sob o pretexto da religião, o Estado legitimou um estado de emergência permanente em que a liberdade individual é sacrificada em nome da sobrevivência do poder. O resultado é uma sociedade marcada pela miséria econômica, fragmentação social, sufocamento cultural e repressão constante.
A experiência iraniana demonstra claramente que uma verdadeira libertação nunca pode vir de cima — nem de reis, nem de generais, nem de padres. Enquanto o poder estiver concentrado, independentemente da cor ideológica, a opressão se reproduz. A liberdade só pode ser construída através da auto-organização, de estruturas horizontais e da resistência coletiva contra todas as formas de autoridade — estatal, religiosa e econômica.
BREVE CONTEXTO
Grande parte das ilusões românticas do povo iraniano se manifestaram nas manifestações de 1979, resumidas no slogan:
“SE O DEMÔNIO FOR EMBORA, O ANJO ENTRARÁ”.
Da mesma forma, amplos setores da esquerda iraniana careciam de uma estratégia de luta clara e coerente. Eles se deixaram embriagar pela chamada “Primavera da Liberdade”, caracterizada por mensagens politicamente ambíguas, fortes ilusões e uma visão romantizada de uma “revolução socialista”. De repente, esqueceram a estrutura de poder xiita-islâmica baseada em mentiras, hipocrisia e controle autoritário. Assim, caíram direto na armadilha do clero e afundaram no pântano fétido de Khomeini.
Antes de assumir o poder, Khomeini prometeu ao povo “ouro e florestas verdes”. Por um lado, prometia “independência e liberdade, a elevação da moralidade e da religiosidade humana” e, por outro, “eletricidade, água, moradia e transporte público gratuitos”. Pouco depois, afirmou que “a economia pertence ao burro”, desculpando-se ao mesmo tempo por não ter agido de forma suficientemente revolucionária desde o início.
Em reuniões privadas com outros religiosos e em comícios públicos, ele declarou abertamente:
“Se tivéssemos agido de forma revolucionária desde o início, como em outras revoluções — proibindo os jornais que escreviam contra o Islã e executando e queimando milhares desses críticos do regime diante dos olhos do público — todos os problemas teriam sido resolvidos”.
Posteriormente, ele assinou um documento que concedia aos tribunais islâmicos o direito de executar sem piedade os prisioneiros políticos que persistissem em suas posições críticas contra seu islamismo xiita.
Durante os verões de 1982 e 1988, por ordem direta de Khomeini, dois massacres horríveis foram cometidos nas prisões iranianas. Milhares de prisioneiros políticos foram executados e enterrados em valas comuns anônimas em todo o país.
Os protestos dos estudantes universitários em Teerã contra as políticas socioeconômicas do regime em 1999 foram brutalmente reprimidos.
Os protestos contra a fraude eleitoral de 2009, o chamado “Movimento Verde”, foram sufocados com violência.
Os protestos nacionais de 2017 e 2019 enfrentaram a mesma repressão brutal.
A revolta prolongada conhecida como movimento “Mulher-Vida-Liberdade” em 2022 foi esmagada com extrema violência.
Os mais recentes protestos nacionais de dezembro de 2025 a janeiro de 2026, desencadeados pela grave deterioração das condições de vida, pela inflação galopante, pelo colapso da moeda, pela instabilidade dos mercados e pela desvalorização da moeda nacional, foram mais uma vez brutalmente reprimidos, causando milhares de mortos e feridos.
E agora, mais uma vez, a mesma ilusão romântica “SE O DEMÔNIO FOR EMBORA, O ANJO ENTRARÁ” ameaça levar a história de volta a 1979, enquanto os defensores da monarquia derrotada dos Pahlavi tentam reconquistar o poder ditatorial perdido sob a liderança hipócrita de Reza Pahlavi.
As forças de esquerda e socialistas, devido a mais de cinquenta anos de repressão fascista — desde a época do domínio dos Pahlavi até hoje — e a uma desorientação política e ideológica crônica, continuam a girar em torno da reprodução de um modelo de Estado-partido centrado em si mesmas. Infelizmente, elas ficaram para trás em relação ao rápido avanço do movimento popular que visa derrubar o Estado xiita-islâmico que governa o Irã.
Esse atraso decorre da falta de mecanismos e capacidades necessários para enfrentar eficazmente os ataques das forças monárquicas fascistas de direita e do seu fracasso — após 47 anos de atividade política e organizativa — em se preparar para essas condições sociais sombrias e catastróficas.
Pelo contrário, o movimento anarquista nascente no Irã, apesar de quase duas décadas de atividades turbulentas e desiguais, e mesmo dispondo apenas de recursos humanos e logísticos mínimos, continuou — com firme determinação e dentro dos limites de suas possibilidades — a promover e difundir ideias anarquistas libertárias. Entre elas: a autogestão individual e coletiva, a auto-organização horizontal (livre de hierarquias partidárias e de uma liderança única), a solidariedade global e o apoio mútuo. Mantendo-se fiel a esses princípios, esse movimento continua em seu caminho independente e emancipatório.
“Ninguém nos concede vitória ou alegria,
nem Deus, nem Rei, nem Herói.
A liberdade deve ser conquistada com nossas próprias mãos,
lutando até a batalha final.”
(A Internacional)
Abaixo o Estado fascista xiita-islâmico no poder no Irã!
Nem Mullah! Nem Xá!
Viva a Mulher–Vida–Liberdade!
Viva o Anarquismo!
Nota: Imagem de destaque realizada pela companheirada no Irã