A edição traduzida da brochura do site Partage Noir dedicada a Erich Mühsam não interessa apenas aos estudiosos do anarquismo alemão. Lida a partir das lutas contemporâneas — especialmente em territórios periféricos e amazônicos — ela funciona como um manual de experimentação política. Mühsam aparece menos como figura histórica e mais como operador: alguém que nos ajuda a pensar formas de organização, usos da cultura e modos de insubordinação que continuam urgentes.
Um militante que opera entre mundos
A brochura revela um Mühsam que nunca se deixou aprisionar por fronteiras políticas ou culturais. Ele circulou entre cabarés, jornais, grupos de subproletários, círculos literários, sindicatos e conselhos operários. Essa mobilidade não é mero acaso biográfico: ela expressa uma estratégia consciente de criar zonas de encontro entre mundos que normalmente não se cruzam. Para quem atua hoje em territórios fragmentados, essa postura oferece uma chave importante. A força política nasce da capacidade de conectar espaços heterogêneos, produzir contaminações e fazer emergir novas formas de solidariedade onde antes havia apenas isolamento.
Arte como infraestrutura política
A relação de Mühsam com o teatro, especialmente com Erwin Piscator, mostra que ele não via a arte como espelho da sociedade, mas como ferramenta de intervenção. O palco, para ele, é um dispositivo de mobilização, capaz de produzir consciência coletiva e afetos compartilhados. Essa visão dialoga diretamente com práticas amazônicas de cultura como autogestão: cineclubes, saraus, grafite, música de rua, teatro comunitário. Mühsam oferece um princípio simples e poderoso: a arte não é um adorno da política, mas uma de suas infraestruturas essenciais.
Conselhos, autogestão e o problema da forma
A participação de Mühsam na República dos Conselhos da Baviera aparece na brochura não como nostalgia revolucionária, mas como estudo de formas organizativas. Ele percebe que conselhos não funcionam sem participação ativa; que a participação ativa depende de cultura política; que a cultura política exige espaços de encontro; e que esses espaços só sobrevivem com autonomia material. Essa leitura antecipa debates que hoje atravessam ocupações urbanas, redes comunitárias, iniciativas de economia solidária e coletivos autogestionários. Sua obra A sociedade libertada do Estado funciona como um mapa das tensões que surgem quando se tenta construir poder popular em meio a estruturas hostis.
O erro como método revolucionário
Um dos aspectos mais interessantes da brochura é a maneira como ela apresenta os erros de Mühsam. Seu apoio inicial à guerra, sua breve adesão ao Partido Comunista e suas contradições estratégicas não são tratados como falhas morais, mas como parte de um processo de experimentação política. Mühsam nos lembra que errar faz parte da prática revolucionária, desde que o erro seja assumido e transformado em aprendizado coletivo. Em um momento em que movimentos sociais são pressionados a parecer impecáveis, essa postura é libertadora. Ela devolve à política sua dimensão de tentativa, risco e reinvenção.
A política dos indisciplinados
Outro elemento provocador é sua atenção ao subproletariado — mendigos, boêmios, trabalhadores informais, figuras consideradas “indisciplinadas” pela esquerda tradicional. Mühsam vê nesses grupos não um problema, mas uma reserva de energia política. Essa leitura ressoa fortemente na Amazônia urbana, onde grande parte da população vive em condições informais ou fora das categorias clássicas do trabalho. Ele nos convida a abandonar modelos rígidos e a reconhecer a potência política dos que vivem à margem, dos que não cabem nas categorias tradicionais da militância.
Textos como ferramentas de intervenção
Os poemas, ensaios e trechos de peças incluídos na brochura funcionam como ferramentas de análise. Eles desmontam discursos nacionalistas, criticam o reformismo sem cair no sectarismo, propõem práticas culturais de massa e transformam indignação em ação coletiva. Não são apenas literatura: são instrumentos de intervenção, capazes de ativar debates e deslocar percepções.
Por que Mühsam importa para o CCLA
Para o Centro de Cultura Libertária da Amazônia, Mühsam não é um autor a ser venerado, mas um companheiro de trabalho. Sua vida e sua obra oferecem métodos de organização flexíveis, uma visão da cultura como força política, uma crítica radical às instituições, uma ética da coragem e da experimentação, uma atenção aos sujeitos invisibilizados e uma recusa permanente de separar arte, vida e luta. Ele nos ajuda a pensar como construir infraestruturas libertárias em territórios complexos, desiguais e criativos como Belém e sua periferia.
