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Patriotismo como Dispositivo de Dominação: Atualidade de Ricardo Flores Magón (1917)

Em 1917, no calor da Revolução Mexicana, Ricardo Flores Magón escreveu um dos textos mais incisivos sobre a fabricação do patriotismo como instrumento de controle social. Mais de um século depois, sua crítica permanece desconfortavelmente atual. Em Patriotismo, o militante anarquista desmonta a construção ideológica que transforma o amor à pátria em dever moral, ao mesmo tempo em que revela quem realmente se beneficia desse sentimento. Ao revisitar esse texto hoje, não buscamos apenas um exercício histórico: buscamos compreender como mecanismos semelhantes continuam operando nas sociedades contemporâneas.

Aqui está a leitura do texto em vídeo:

Flores Magón parte de uma observação simples, mas devastadora: o patriotismo não nasce espontaneamente. Ele é inculcado desde a infância, por meio de canções, símbolos, rituais escolares e narrativas heroicas que moldam a sensibilidade das crianças. A pátria aparece como algo sagrado, anterior à própria experiência individual. A criança aprende a amar a bandeira antes mesmo de compreender o mundo que a cerca. Esse processo, longe de ser neutro, prepara os futuros adultos para aceitar sacrifícios em nome de interesses que não são seus.

A crítica magonista revela que o patriotismo funciona como uma pedagogia da obediência. A escola, a igreja, a imprensa e o Estado convergem para produzir um sujeito disposto a defender a pátria — mesmo quando a pátria não o defende. O autor observa que, para os pobres, a pátria se manifesta sobretudo como obrigação: serviço militar, impostos, repressão policial, trabalho forçado. Já para os ricos, ela aparece como garantia: proteção da propriedade, estabilidade política, segurança jurídica. A pátria, portanto, não é um território comum, mas um arranjo de poder que beneficia uma minoria.

Essa assimetria fica evidente quando Flores Magón analisa as invasões norte‑americanas no México durante a Revolução. Segundo ele, a burguesia mexicana não protestou contra a presença militar estrangeira porque essa presença servia aos seus interesses: estabilizar o governo de Venustiano Carranza e conter o avanço das forças populares. O patriotismo, tão exaltado nos discursos oficiais, desaparece quando ameaça os privilégios da classe dominante. A defesa da pátria só é exigida dos pobres — e apenas quando convém aos ricos.

O texto também denuncia a manipulação do sentimento patriótico para justificar guerras e repressões internas. Ao transformar o estrangeiro em inimigo natural, o patriotismo desvia a atenção das contradições sociais internas. Em vez de questionar a exploração, o trabalhador é incentivado a odiar quem nasceu do outro lado da fronteira. Essa lógica, que Flores Magón identifica no México de 1917, continua presente em inúmeros contextos contemporâneos: políticas migratórias xenófobas, discursos de “segurança nacional”, campanhas militares travestidas de defesa da democracia.

A força do texto reside na clareza com que expõe a função política do patriotismo. Ele não é apenas um sentimento, mas um dispositivo ideológico que legitima a violência estatal e a desigualdade social. Ao mesmo tempo, Flores Magón não se limita à denúncia. Seu chamado final — “Abramos os olhos” — é um convite à desnaturalização. Ele nos lembra que a pátria, tal como é apresentada, não é um destino inevitável, mas uma construção histórica que pode e deve ser questionada.

Para os movimentos sociais de hoje, essa reflexão é fundamental. Em tempos de recrudescimento nacionalista, discursos militarizados e tentativas de capturar símbolos nacionais para agendas autoritárias, revisitar Flores Magón é um gesto de resistência. Seu texto nos ajuda a compreender que o patriotismo, quando instrumentalizado pelo poder, serve para dividir os trabalhadores, justificar guerras e silenciar críticas. Mas também nos lembra que a solidariedade internacional, a consciência de classe e a luta por emancipação não reconhecem fronteiras.

Ao trazer Patriotismo para o debate contemporâneo, o CCLA reafirma a importância de recuperar tradições críticas que desmontam os mecanismos de dominação. A leitura de Flores Magón não é apenas histórica: é uma ferramenta para pensar o presente. Em um mundo marcado por desigualdades profundas, crises migratórias e conflitos geopolíticos, a crítica ao patriotismo como ideologia continua sendo uma tarefa urgente.

Abrir os olhos, como ele propõe, significa reconhecer que a verdadeira comunidade não é a pátria abstrata, mas a solidariedade concreta entre aqueles que vivem do próprio trabalho. Significa recusar a convocação para defender interesses que não são nossos. Significa, enfim, recuperar a capacidade de imaginar formas de vida que não dependam da obediência a bandeiras, hinos ou fronteiras, mas da construção coletiva de liberdade e justiça.