A guerra no Sudão, frequentemente invisibilizada pelos grandes meios de comunicação, é uma das crises humanitárias e políticas mais graves da atualidade. Desde 2023, o país vive um conflito devastador entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), duas estruturas militares que disputam o controle do Estado e dos recursos estratégicos do país. No meio desse confronto, milhões de pessoas foram deslocadas, cidades inteiras foram destruídas e comunidades inteiras lutam diariamente pela sobrevivência.
Aqui a leitura do texto produzido pela rede das organizações anarquistas envolvidas na solidariedade internacional para com a população sudanesa e @s anarquistas desse país:
Para movimentos populares, organizações de base e coletivos internacionalistas, a guerra no Sudão não pode ser vista como um evento distante. Ela é parte de um cenário global marcado por militarização, autoritarismo, disputa imperialista e colapso social. A solidariedade internacional, portanto, não é apenas um gesto moral: é uma necessidade política. É reconhecer que as lutas contra opressão, exploração e violência de Estado estão profundamente conectadas, independentemente das fronteiras.
Este artigo busca apresentar uma leitura crítica da guerra no Sudão, destacar o papel das comunidades sudanesas na resistência e refletir sobre o que significa construir solidariedade internacionalista a partir de movimentos populares de outros países — inclusive do Brasil.
A guerra no Sudão: raízes estruturais e interesses em disputa
A atual guerra não surgiu do nada. Ela é resultado de décadas de instabilidade política, autoritarismo militar, exploração econômica e interferência internacional. Após a queda do ditador Omar al‑Bashir em 2019, abriu‑se uma janela de esperança para uma transição democrática liderada por civis. No entanto, essa transição foi sabotada por setores militares que nunca aceitaram perder o controle do Estado.
A disputa entre SAF e RSF não é ideológica. Trata‑se de uma luta entre duas facções armadas que buscam controlar recursos naturais estratégicos, rotas comerciais, apoio de potências regionais e o próprio aparato estatal. Enquanto isso, a população civil paga o preço: fome, deslocamento, violência sexual, massacres e destruição de infraestrutura básica.
A resistência popular sudanesa: redes de solidariedade e autogestão em meio ao caos
Apesar da brutalidade da guerra, o Sudão tem uma longa tradição de organização popular. Desde 2018, com as grandes mobilizações que derrubaram al‑Bashir, surgiram comitês de bairro, redes de apoio mútuo e estruturas comunitárias que funcionam como formas de autogoverno local.
Durante a guerra, esses comitês se tornaram essenciais. Eles organizam distribuição de alimentos, abrigos comunitários, atendimento médico improvisado, proteção de crianças e idosos, comunicação entre bairros e evacuação de áreas de risco. Essas iniciativas mostram que, mesmo em meio ao colapso estatal, a organização popular é capaz de sustentar a vida. Elas também revelam que a resistência sudanesa não se limita a sobreviver: ela constrói alternativas concretas ao militarismo e ao autoritarismo.

O papel das potências regionais e internacionais
A guerra no Sudão é alimentada por interesses externos. Países vizinhos, potências do Golfo e atores globais disputam influência na região, fornecendo armas, financiamento e apoio político às facções em conflito. Isso transforma o Sudão em palco de uma guerra por procuração, onde a população civil é tratada como dano colateral.
Essa dinâmica se repete em diversos conflitos contemporâneos, mostrando como o sistema internacional privilegia a estabilidade dos mercados e a circulação de recursos estratégicos em detrimento da vida humana. Para movimentos internacionalistas, denunciar essa lógica é parte fundamental da solidariedade.
Por que a solidariedade internacional é necessária?
A solidariedade internacional não é caridade. Ela é uma prática política que reconhece que as lutas contra opressão são interligadas, que o militarismo é um fenômeno global e que crises humanitárias são produzidas por estruturas econômicas e políticas transnacionais.
No caso do Sudão, a solidariedade internacional é necessária porque a guerra é invisibilizada, organizações de base precisam de apoio material, refugiados sudaneses enfrentam racismo e violência em vários países, e denunciar o militarismo é parte da luta global contra autoritarismo. Fortalecer redes de apoio mútuo é fortalecer alternativas ao Estado militarizado.
O que movimentos populares de outros países podem aprender com o Sudão
A experiência sudanesa oferece lições valiosas. Os comitês de bairro mostram que a organização territorial é fundamental para resistir a crises profundas. O apoio mútuo revela que, quando o Estado falha — ou se torna agente de violência —, são as redes comunitárias que sustentam a vida. A horizontalidade demonstra que é possível construir resistência sem líderes carismáticos ou partidos centralizadores. E a coragem de enfrentar o militarismo inspira movimentos que, em seus próprios territórios, lidam com forças armadas, polícias militarizadas e grupos paramilitares.
Solidariedade como prática revolucionária
A guerra no Sudão é uma tragédia, mas também um testemunho da força da organização popular. Em meio ao caos, comunidades inteiras constroem alternativas, protegem umas às outras e desafiam estruturas de poder que pareciam inabaláveis.
Para movimentos internacionalistas, apoiar essa resistência é parte de uma luta maior: a luta contra o militarismo, o autoritarismo, o imperialismo e todas as formas de dominação que atravessam o mundo contemporâneo.
A solidariedade internacional não é um gesto simbólico.
Ela é uma prática revolucionária — e, diante da guerra no Sudão, ela é mais urgente do que nunca.
Caminhos para a solidariedade a partir do Brasil
O Brasil tem uma longa tradição de movimentos populares, redes de apoio mútuo e lutas comunitárias. A solidariedade com o Sudão pode assumir diversas formas: divulgar informações confiáveis sobre a guerra, apoiar organizações sudanesas de base, pressionar instituições brasileiras a acolher refugiados, denunciar o papel de potências internacionais no conflito e fortalecer redes internacionalistas entre coletivos e movimentos.
A solidariedade não precisa ser abstrata. Ela pode ser concreta, cotidiana e construída a partir de vínculos reais entre povos que enfrentam opressões diferentes, mas conectadas.
Assim, se quiser enviar um apoio financeiro para @s noss@s companheir@s anarquistas do Sudão, você pode doar via a CNT-AIT da França (enviando um e-mail para contact@cnt-ait.info para informar sobre a doação, assim, em troca, a CNT-AIT informará sobre o uso dado a ela): https://www.paypal.com/paypalme/cntait1.
Abaixo, um texto que recebemos recentemente, escrito por um camarada anarquista sudanês. Agradecemos se você puder compartilhá-lo amplamente em suas redes.
O papel do imperialismo na ocultação da crise sudanesa
Comunicado de Fawaz Murtada (companheiro anarquista sudanês do Anarchist Group of Sudan)
Por ocultação da crise, entendemos o silêncio deliberado e a dissimulação do que está acontecendo no Sudão. Como sabem, muitas violações horríveis estão ocorrendo no Sudão, que o mundo prefere ignorar. Isso não se deve ao fato de o Sudão ser insignificante ou desconhecido, mas porque a questão é muito mais complexa. O silêncio da mídia sobre o que está acontecendo no Sudão é sistemático e intencional, e tem consequências profundas.
Vemos, por exemplo, que o Programa Mundial de Alimentos anunciou que reduziria a parcela da ajuda concedida ao Sudão em plena catástrofe devido à insuficiência de financiamento. Não se trata apenas de uma evolução perigosa em um país que se tornou fortemente dependente da ajuda humanitária.
Visitei pessoalmente mais de seis campos de deslocados e fiquei chocado ao descobrir que grande parte da ajuda não chega aos deslocados, mas é vendida no mercado livre. Isso revela a existência de vastas redes de corrupção na distribuição da ajuda humanitária. Queremos destacar a forma como o capitalismo investe nas crises.
Em um país como o Sudão, vemos que as mesmas empresas que vendem armas ao exército também vendem armas aos seus adversários, as Forças de Apoio Rápido, garantindo assim a continuação da guerra em troca de ouro. A mineração artesanal não regulamentada cresceu consideravelmente, causando a morte de milhares de trabalhadores todos os anos para extrair maiores quantidades de ouro. Este ouro é então utilizado para adquirir maior poder de compra, a fim de importar mais armas.
Esta guerra não é uma guerra civil nem um conflito tribal; é uma guerra entre empresas imperialistas nos países do Sul. Os caminhos seguidos pela Líbia, Iêmen e Síria tornaram-se modelos: a estratégia de apoiar milícias e travar guerras por procuração transformou-se num polo de investimento e num mercado aberto em águas turvas, onde a pesca é lucrativa. Em tempos de guerra, o comércio de armas, drogas e tráfico de seres humanos prospera consideravelmente.
Hoje, não vemos saída para a crise sudanesa, a não ser pela resistência política, cultural e econômica ao sistema dominante e por uma reflexão séria sobre os meios de cortar o fornecimento de armas, que é a forma mais eficaz de pôr fim à guerra. Como grande parte do financiamento vem de dentro do país, uma greve dos trabalhadores das minas de ouro poderia ter um impacto significativo na guerra no Sudão. No entanto, isso é extremamente difícil na ausência de sindicatos ou instituições sindicais unificadas e, considerando as diferenças nos ambientes de trabalho que afetam profundamente todos os aspectos da organização.
Sabemos que a criação de tais redes é uma das tarefas mais difíceis, mas estamos tentando formar grupos com base em um estudo aprofundado do ambiente dos trabalhadores, das causas, da natureza e das tradições de seu trabalho. Para pôr fim à guerra no Sudão, é preciso começar por secar as fontes de financiamento internas e externas.
Fawaz Murtada