A história do anarquismo internacional é marcada por figuras cuja força moral e intensidade intelectual ultrapassaram fronteiras, regimes e gerações. Entre elas, poucas brilham com a mesma chama de Luigi Galleani, cuja vida atravessou o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX como um fio contínuo de resistência, perseguição e fidelidade inabalável a um ideal libertário. O texto de Max Nettlau, escrito em 1932, pouco após a morte de Galleani, oferece não apenas um retrato biográfico, mas também uma reflexão sobre o que significa viver a anarquia como prática cotidiana, como ética e como destino. A partir desse material, este artigo busca reconstruir a trajetória de Galleani e situá-la no contexto mais amplo das lutas sociais, das repressões estatais e das tensões internas do movimento anarquista.
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O ano de 1931, que marca a morte de Galleani, foi também um período de perdas profundas para o movimento libertário internacional. Nettlau recorda a morte de figuras como Dumarthay, Pouget, Teresa Claramunt e outros veteranos que haviam moldado o anarquismo desde o século XIX. A morte de Galleani, porém, possui um peso particular: não apenas encerra a vida de um dos mais brilhantes propagandistas italianos, mas simboliza o esmagamento sistemático de uma geração inteira pelo fascismo e pelos Estados que, após a Primeira Guerra Mundial, reorganizaram suas máquinas repressivas com uma brutalidade renovada.
Nascido em 1861 em Vercelli, no Piemonte, Galleani cresceu em um ambiente burguês e recebeu formação clássica e jurídica. Tudo indicava que seguiria uma carreira confortável no direito ou na política republicana. No entanto, como tantos jovens radicais de sua época, encontrou no anarquismo não apenas uma crítica ao Estado, mas uma ética de vida que o afastou definitivamente das instituições. Ao contrário de outros juristas libertários — como Merlino, Gori ou Molinari —, Galleani recusou-se a exercer a profissão de advogado, mesmo como instrumento de defesa dos oprimidos. Sua ruptura foi total: escolheu o jornalismo militante, a agitação operária e a propaganda direta como caminhos de ação.
Sua atuação inicial no norte da Itália o colocou em contato com um proletariado industrial que, diferentemente das regiões do sul, estava menos ligado às tradições revolucionárias do Risorgimento e mais às lutas econômicas imediatas. Nesse ambiente, Galleani se destacou como orador e agitador, aproximando-se de grupos operários que oscilavam entre o reformismo e o sindicalismo combativo. Sua presença em jornais como Proximus Tuus, Gazzetta Operaia e Combattiamo! consolidou sua reputação como um dos mais eloquentes defensores do comunismo anarquista.
A repressão, porém, não tardou. Perseguições, prisões e expulsões o levaram a Genebra, Paris e novamente à Itália, sempre acompanhado pela sombra da vigilância policial. Em Genebra, viveu um dos períodos mais férteis de sua formação intelectual, convivendo com Elisée Reclus e Jacques Gross, e participando de debates que moldaram o anarquismo internacional. O ambiente suíço, repleto de exilados de diversas origens, ofereceu a Galleani uma visão cosmopolita da luta libertária, ao mesmo tempo em que reforçou sua desconfiança em relação a alianças políticas e estratégias parlamentares.
Sua participação no congresso de Capolago, em 1891, marcou um momento decisivo. Ali, entre dezenas de delegados antiparlamentares, consolidou-se a ideia de um partido socialista revolucionário anárquico, impulsionado por Malatesta. Galleani, embora próximo do espírito do congresso, já demonstrava certa aversão a estruturas organizativas rígidas, preferindo a ação direta e a propaganda como motores da transformação social. Essa tensão entre organização e espontaneidade, que atravessaria todo o movimento anarquista, encontrou em Galleani um defensor intransigente da autonomia e da iniciativa individual.
A década de 1890 foi marcada por intensa atividade e crescente repressão. Em 1894, Galleani foi condenado com base no artigo 248 do Código Penal italiano, que criminalizava ideias anarquistas como se fossem associações criminosas. Passou mais de três anos na prisão e, em seguida, foi deportado para a ilha de Pantelleria. Sua fuga para o Egito, em 1900, foi uma demonstração de audácia e determinação, mas também o início de uma nova fase de exílio.
A partir de 1901, nos Estados Unidos, Galleani encontrou um terreno fértil para sua propaganda. A comunidade italiana de Paterson, Lynn e Barre era numerosa, combativa e profundamente marcada pelas experiências de exploração industrial. Ali, ele editou La Questione Sociale e, mais tarde, a célebre Cronaca Sovversiva, que se tornaria um dos periódicos anarquistas mais influentes da diáspora italiana. Seus discursos inflamavam assembleias, suas análises circulavam clandestinamente e sua figura se tornou referência para uma geração inteira de militantes.
Foi nesse ambiente que surgiram Sacco e Vanzetti, que reconheceram em Galleani não apenas um mestre, mas um exemplo de integridade revolucionária. A ligação entre eles não era apenas ideológica: era ética, afetiva e profundamente marcada pela experiência comum de perseguição. Nettlau observa que, se o governo americano não tivesse deportado Galleani em 1919, ele provavelmente teria sido executado ao lado dos dois operários italianos.
A obra escrita de Galleani é vasta e diversa. Seus textos sobre processos judiciais, reunidos em Faccia a Faccia col Nemico, revelam uma sensibilidade literária rara e uma capacidade de transformar episódios repressivos em narrativas de resistência. Sua edição das memórias de Clément Duval, publicadas em 1929, demonstra seu compromisso com a preservação da memória dos mártires anarquistas. Seus esboços biográficos, reunidos em Figure e Figuri, oferecem retratos vivos de figuras como Reclus, Berkman, Voltairine de Cleyre, Gori e Kropotkin, ao lado de críticas mordazes a renegados e oportunistas.
Sua polêmica com Merlino, publicada em La Fine dell’Anarchismo?, é um dos textos mais vigorosos do anarquismo do século XX, defendendo a vitalidade da ideia libertária contra leituras conciliadoras. Sua crítica à posição pró-guerra de Kropotkin, escrita entre 1914 e 1915, revela sua capacidade de manter firmeza ética mesmo diante de divergências com figuras que admirava profundamente.
O retorno forçado à Itália, em 1919, encontrou Galleani debilitado pela diabetes, mas ainda disposto a continuar a propaganda. O fascismo, porém, rapidamente o isolou, censurou e perseguiu. Entre prisões, deportações e vigilância constante, seus últimos anos foram marcados por sofrimento físico e político. Morreu em 4 de novembro de 1931, em Caprigliola, acolhido por companheiros que também haviam sido vítimas da violência fascista.
A vida de Luigi Galleani é, ao mesmo tempo, uma história de resistência e de coerência. Sua recusa em comprometer princípios, sua dedicação à propaganda e sua capacidade de inspirar gerações fazem dele uma figura central na memória libertária. Nettlau, ao escrever sobre sua morte, não lamenta apenas a perda de um amigo, mas o desaparecimento de uma força moral que iluminou o movimento anarquista por décadas. E, no entanto, como ele próprio afirma, o espírito de Galleani continua vivo em todos aqueles que se recusam a aceitar a opressão como destino e que veem na liberdade não um ideal distante, mas uma prática cotidiana.