Antes de entrarmos nos fundamentos e nos passos práticos para organizar uma assembleia popular de bairro, é importante reconhecer um ponto essencial: o texto que inspira este artigo foi produzido a partir de experiências norte‑americanas, especialmente de comunidades que se organizaram após a eleição de Donald Trump em 2025.
Isso significa que alguns exemplos, estruturas institucionais, formas de repressão e dinâmicas sociais mencionadas no material original pertencem a uma realidade específica dos Estados Unidos.
No entanto, os princípios organizativos, as lógicas de construção de poder popular e as estratégias de democracia direta são amplamente aplicáveis — desde que reinterpretadas à luz das condições brasileiras.
Aqui, enfrentamos desafios próprios: desigualdade extrema, violência policial historicamente racializada, precarização urbana, ausência de políticas públicas consistentes, influência de igrejas e facções em territórios vulnerabilizados, e um Estado que combina omissão com autoritarismo seletivo.
Assim, este artigo busca traduzir e adaptar os ensinamentos do guia original para a realidade brasileira, mantendo sua essência libertária, comunitária e autogestionária.
Aqui está a leitura do texto produzido pela Federação Anarquista Rosa Negra (EUA) e traduzido pelo CCLA:
1. Por que falar de assembleias populares hoje?
Vivemos um período marcado por crises sobrepostas: econômica, social, ambiental, habitacional, sanitária e política.
A sensação de desamparo é generalizada. Muitos acreditam que não há saída, que nada pode ser feito, que a política institucional é um jogo fechado e que a vida cotidiana está condenada a seguir piorando.
Esse sentimento não é acidental. Ele é produzido e reproduzido por estruturas de poder que se beneficiam da nossa fragmentação.
Quando estamos isolados, somos mais vulneráveis. Quando acreditamos que somos impotentes, aceitamos o inaceitável. Quando não conhecemos nossos vizinhos, perdemos a capacidade de agir coletivamente.
As assembleias populares surgem justamente como antídoto a esse processo.
Elas são espaços de encontro, decisão e ação direta, onde pessoas que compartilham um território podem:
- identificar problemas comuns
- compreender suas causas estruturais
- construir confiança
- decidir coletivamente o que fazer
- agir juntas para transformar a realidade
Não se trata de um modelo importado, mas de uma prática que já existe em diversas tradições brasileiras: mutirões, associações de moradores, ocupações urbanas, quilombos, comunidades eclesiais de base, conselhos populares, comitês de luta, entre outras.
A assembleia popular é uma forma contemporânea de organizar essa energia histórica.
2. Fundamento 1: O poder das estruturas de dominação se exerce localmente
Embora decisões que afetam nossas vidas sejam tomadas em gabinetes distantes — Brasília, capitais estaduais, sedes de empresas multinacionais —, é no território que elas se materializam.
Uma política federal de despejo zero pode ser ignorada por um juiz local.
Uma decisão empresarial tomada em São Paulo pode destruir empregos em uma cidade pequena.
Uma diretriz policial estadual pode resultar em violência cotidiana em uma favela específica.
Por isso, compreender quem exerce poder no território é fundamental:
- órgãos públicos locais
- empresas que controlam serviços essenciais
- forças de segurança
- igrejas e lideranças religiosas
- associações empresariais
- grupos armados
- ONGs e instituições filantrópicas
- influenciadores comunitários
Mapear esses atores é o primeiro passo para entender onde estão as brechas, quem são os aliados, quem são os adversários e como agir estrategicamente.
3. Fundamento 2: Organizar pessoas é construir poder coletivo
Organizar não é “convencer” alguém a adotar uma ideologia.
Organizar é transformar pessoas comuns em sujeitos políticos capazes de agir coletivamente.
Isso exige:
- escuta ativa
- paciência
- construção de confiança
- identificação de interesses compartilhados
- criação de espaços seguros para participação
- valorização das experiências de vida das pessoas
No Brasil, onde a desigualdade molda profundamente as relações sociais, organizar significa também reconhecer as diferenças de classe, raça, gênero e território, e criar mecanismos para que todas as vozes sejam ouvidas.
Organizar é um processo lento, mas poderoso.
É assim que comunidades se tornam capazes de enfrentar:
- despejos
- violência policial
- cortes de serviços públicos
- gentrificação
- aumento de tarifas
- destruição ambiental
- abandono estatal
E, mais importante, é assim que elas constroem alternativas concretas.
4. Fundamento 3: Decisão direta exige ação direta
Uma assembleia popular não é um espaço para “fazer reivindicações” a autoridades.
Ela é um espaço para decidir e agir.
Isso não significa agir de forma impulsiva ou irresponsável.
Significa assumir que:
- se decidimos algo, nós mesmos devemos executar
- não delegamos nossa força a políticos, ONGs ou empresas
- a ação direta é uma ferramenta legítima de transformação
A ação direta pode assumir muitas formas:
- mutirões
- bloqueios
- ocupações
- campanhas de informação
- redes de solidariedade
- monitoramento de abusos
- pressão comunitária
- criação de serviços autogestionados
O importante é que a ação seja coletiva, planejada e coerente com as decisões da assembleia.
5. Fundamento 4: A confiança é o motor da ação
Sem confiança, não há organização.
Sem organização, não há poder popular.
A confiança se constrói:
- na convivência
- na transparência
- na responsabilidade compartilhada
- na capacidade de cumprir o que foi decidido
- no cuidado mútuo
- na horizontalidade
No Brasil, onde a violência e a precariedade corroem laços comunitários, reconstruir a confiança é um desafio central.
Mas é também o que torna as assembleias tão transformadoras: elas criam novos vínculos, novas formas de pertencimento, novas possibilidades de futuro.
6. Passo 1: Conheça seus vizinhos
Pode parecer simples, mas é revolucionário.
Bater de porta em porta, conversar, ouvir, perguntar, entender o que preocupa as pessoas — isso cria as bases da assembleia.
Perguntas úteis:
- O que mais te preocupa no bairro?
- O que você gostaria que fosse diferente?
- Você já participou de alguma iniciativa comunitária?
- O que te faria querer agir junto com outras pessoas?
Essas conversas revelam:
- problemas comuns
- potenciais lideranças
- pessoas dispostas a ajudar
- tensões internas
- expectativas e limites
E, sobretudo, mostram que ninguém está sozinho.
7. Passo 2: Conheça apoiadores e organizações do território
No Brasil, o território é atravessado por uma infinidade de organizações:
- coletivos culturais
- igrejas
- associações de moradores
- sindicatos
- grupos de juventude
- coletivos feministas e LGBTQIA+
- movimentos de moradia
- escolas e universidades
- grupos de esporte
- terreiros
- coletivos de saúde comunitária
Alguns serão aliados naturais.
Outros terão interesses divergentes.
Alguns podem tentar cooptar a assembleia.
Outros podem se opor abertamente.
O importante é mapear, dialogar e estabelecer limites claros.
8. Passo 3: Agende a primeira reunião e divulgue
A primeira reunião é decisiva.
Ela deve ser:
- acessível
- próxima
- segura
- acolhedora
- bem divulgada
No Brasil, isso significa considerar:
- transporte público limitado
- horários de trabalho extensos
- cuidados com crianças
- acessibilidade para pessoas com deficiência
- segurança do local
- presença de grupos armados no território
A divulgação deve combinar:
- panfletagem
- boca a boca
- redes sociais
- grupos de WhatsApp
- cartazes em comércios locais
- convites personalizados
O mais importante é que as pessoas sintam que foram convidadas pessoalmente.
9. Passo 4: Facilitação, objetivos claros e tomada de decisão
Uma assembleia não é uma conversa solta.
Ela precisa de:
- uma agenda clara
- objetivos definidos
- facilitação inclusiva
- mecanismos de decisão
A facilitação deve garantir:
- que todas as vozes sejam ouvidas
- que ninguém domine a discussão
- que o tempo seja respeitado
- que o debate avance
No Brasil, onde desigualdades estruturais moldam quem fala e quem é silenciado, isso exige atenção redobrada.
A decisão pode ser por:
- consenso
- maioria simples
- maioria qualificada
O importante é que o método seja coletivamente acordado.
10. Passo 5: Encontrar as falhas do sistema
Todo sistema tem brechas.
Toda estrutura de poder tem pontos vulneráveis.
Toda política pública tem contradições.
A assembleia deve identificar:
- onde o Estado falha
- onde empresas abusam
- onde a polícia atua de forma ilegal
- onde há negligência
- onde há oportunidades de ação
E, a partir disso, construir estratégias.
11. O exemplo de Koreatown e sua adaptação ao Brasil
Nos EUA, a Assembleia Popular de Koreatown organizou:
- redes de proteção contra o ICE
- monitoramento de operações policiais
- formação de educadores
- resposta rápida a abusos
No Brasil, equivalentes poderiam ser:
- redes de proteção contra violência policial
- monitoramento de despejos
- defesa de territórios ameaçados por milícias ou grilagem
- campanhas de informação sobre direitos
- mutirões de saúde e alimentação
- comitês de crise em enchentes e desastres
O princípio é o mesmo: agir coletivamente para proteger a comunidade.
12. Passo 6: Construção contínua: subgrupos, documentação e continuidade
Uma assembleia viva precisa de:
- grupos de trabalho
- registro das decisões
- acompanhamento das tarefas
- formação política
- renovação constante
Sem isso, ela se desgasta.
Com isso, ela se fortalece.
13. Escutar, adaptar e evoluir
O bairro muda.
As pessoas mudam.
Os problemas mudam.
A assembleia deve ser capaz de:
- revisar prioridades
- acolher novas demandas
- adaptar estratégias
- aprender com erros
- celebrar conquistas
A flexibilidade é parte da força.
14. Passo 7: Mentoria, Formação e Renovação da Assembleia
Nenhuma assembleia popular se sustenta sem formar novas lideranças, compartilhar conhecimentos e garantir renovação constante.
Por que isso é tão importante?
- Evita concentração de poder.
- Impede que a assembleia dependa de poucas pessoas.
- Garante que novas pessoas possam participar plenamente.
- Fortalece a horizontalidade.
- Cria uma cultura de aprendizado coletivo.
Como implementar esse passo?
1. Mentoria entre participantes
Pessoas com mais experiência ajudam quem está chegando:
- como facilitar reuniões
- como organizar uma pauta
- como falar em público
- como lidar com conflitos
- como planejar ações
Isso cria autonomia e confiança.
2. Rotatividade de funções
Facilitação, secretaria, comunicação, logística — tudo deve circular.
Isso impede hierarquias informais e fortalece a assembleia.
3. Formação política e técnica
Pode incluir:
- oficinas de facilitação
- debates sobre temas do bairro
- estudos sobre direitos
- formação em segurança digital
- rodas de conversa sobre história das lutas populares
No Brasil, onde a educação política é sistematicamente atacada, isso é vital.
4. Integração de novos membros
Novas pessoas precisam:
- entender como a assembleia funciona
- conhecer os princípios
- saber como participar
- sentir-se acolhidas
Sem isso, a assembleia se fecha em si mesma.
5. Transmissão de memória organizativa
A experiência acumulada deve ser compartilhada:
- o que funcionou
- o que não funcionou
- quais estratégias deram resultado
- quais erros devem ser evitados
Isso evita que cada ciclo recomece do zero.
Conclusão: construir poder popular a partir do território
As assembleias populares são ferramentas poderosas porque:
- devolvem às pessoas o controle sobre suas vidas
- criam laços de solidariedade
- fortalecem a democracia direta
- enfrentam estruturas de dominação
- constroem alternativas concretas
- transformam o bairro e, a partir dele, o mundo
No Brasil, onde a desigualdade e a violência moldam o cotidiano, organizar assembleias populares é um ato profundamente político — e profundamente necessário.
Elas não são a solução para tudo.
Mas são um caminho real, concreto e transformador para reconstruir o poder das pessoas comuns.
E, como toda construção coletiva, começam com um gesto simples:
bater na porta do vizinho e perguntar como ele está.