Quando Lucy Parsons escreve Os Princípios do Anarquismo, em 1905, ela não oferece ao público um manifesto doutrinário no sentido clássico, nem um programa fechado de reorganização social. O texto nasce de uma experiência vivida — greves, repressão, organização operária, luto político — e se estrutura como um processo de desaprendizagem: desaprender a confiança no governo, desaprender a fé na política institucional, desaprender a ideia de que a ordem precisa ser imposta de cima para baixo. O que emerge desse percurso não é uma utopia distante, mas uma crítica radical às formas modernas de poder e uma aposta profunda na capacidade humana de auto-organização.
O ponto de partida do texto é autobiográfico e, ao mesmo tempo, coletivo. Lucy Parsons relembra sua entrada na chamada “Questão do Trabalho” durante a grande greve ferroviária de 1877, marco decisivo da história da luta operária nos Estados Unidos. Como muitos militantes de sua geração, ela acreditou inicialmente que o Estado poderia ser apropriado pelos oprimidos e utilizado como instrumento de emancipação. Essa crença, porém, se dissolve à medida que ela estuda a origem, o funcionamento e a lógica interna dos governos. O aprendizado não é sentimental, mas histórico e materialista: o poder concentrado, uma vez constituído, tende sempre a se autonomizar, a se proteger e a se perpetuar, mesmo quando nasce de promessas populares.
O CCLA produziu um vídeo de leitura desse texto que está disponível aqui:
Nesse ponto, Parsons formula uma crítica que permanece atual: não importa o conteúdo do discurso eleitoral ou as intenções declaradas de um partido. Uma vez instalado no poder, ele passa a agir segundo as mesmas necessidades estruturais de qualquer aparato governamental — neutralizar a oposição, silenciar o descontentamento, preservar a máquina que o sustenta. O problema não é moral, mas sistêmico. O Estado não é corrompido pelo poder; ele é, desde sua origem, a organização científica da força. Por isso, não conduz o progresso, apenas o reconhece tardiamente, quando já não consegue mais reprimi-lo.
Essa análise desloca o debate político para fora da falsa alternativa entre bons e maus governos. Parsons desmonta a ilusão de que a sociedade poderia confiar a gestão integral de sua vida social, econômica e cultural a representantes investidos de autoridade centralizada. A ideia de que um partido possa decidir o que se ensina, o que se publica, o que se lê e como se vive aparece, em seu texto, como uma forma sofisticada de despotismo, mesmo quando legitimada pela regra da maioria. A democracia representativa, nesse sentido, não elimina a dominação; apenas a torna mais difusa e, por isso mesmo, mais difícil de contestar.
A passagem do socialismo político ao anarquismo é apresentada como uma escolha racional, fundada na observação histórica e na recusa de delegar a outros aquilo que diz respeito à vida comum. Para Parsons, a luta pela liberdade é ampla demais para ser confinada às instituições governamentais. Cada passo arrancado ao poder foi obtido contra o Estado, e não por meio dele. A filosofia anarquista surge, então, como a única capaz de oferecer condições reais para o desenvolvimento pleno dos indivíduos, justamente porque se recusa a impor limites artificiais ao pensamento, à experimentação e à organização social.
É nesse ponto que o texto adquire uma densidade filosófica notável. O anarquismo não é apresentado como um conjunto de verdades fixas, mas como um princípio orientador: a liberdade. Tudo o que favorece o progresso humano — intelectual, material, afetivo — encontra lugar nessa perspectiva. Nada é considerado tão verdadeiro que não possa ser questionado, revisto ou abandonado à luz de novas descobertas. Em contraste com as ideologias cristalizadas, que transformam seus princípios em dogmas intocáveis, o anarquismo se define como uma ciência-guia, aberta, antidogmática, hostil a toda forma de sacralização política.
Essa abertura não significa ausência de critérios, mas rejeição da autoridade como fundamento da verdade. A liberdade, aqui, não é um valor abstrato, mas uma condição concreta de produção de conhecimento e de vida. Ao remover as barreiras entre o ser humano e os recursos naturais, entre a mente e a verdade, entre o corpo e suas necessidades, o anarquismo propõe uma reorganização profunda das relações sociais. O alvo não é apenas o Estado, mas todas as formas de mediação coercitiva que se interpõem entre as pessoas e suas possibilidades de existência.
A crítica ao governo se articula, então, com uma crítica da violência legalizada. Para Parsons, a miséria, o crime e a confusão social não são falhas morais dos indivíduos, mas consequências diretas da imposição de força organizada sobre a vida cotidiana. A lei, longe de garantir justiça, institui privilégios; a polícia, longe de proteger, administra desigualdades; os tribunais, longe de resolver conflitos, os congelam em estruturas hierárquicas. Buscar alívio por meio do Estado é, portanto, aprofundar a própria fonte do sofrimento social.
Diante das barreiras reais que se erguem no caminho da liberdade — propriedade privada absoluta, monopólio dos meios de vida, repressão institucional — Parsons recusa tanto o gradualismo eleitoral quanto a passividade moral. As metáforas que utiliza são eloquentes: rochas imensas bloqueiam o caminho, abismos se abrem atrás. Esperar que essas barreiras caiam sozinhas é aceitar ser soterrado por elas. Daí a afirmação, recorrente entre os anarquistas de sua época, de que a transformação social não pode excluir a hipótese revolucionária. Não por fetichismo da violência, mas porque a classe proprietária não abrirá mão pacificamente de seus privilégios estruturais.
Ainda assim, o texto insiste que os anarquistas trabalham pela paz sempre que possível — exceto quando o preço dessa paz é a própria liberdade. Trata-se de uma ética da responsabilidade histórica, que recusa tanto o pacifismo abstrato quanto o culto da destruição. A revolução aparece como um momento necessário de remoção das barreiras, não como um fim em si mesma.
Quando Parsons se volta para a questão da organização social, ela reafirma um princípio central do anarquismo clássico: não cabe desenhar antecipadamente um modelo fechado de sociedade futura. Fazer isso seria repetir o gesto autoritário que se pretende superar. As formas de organização devem emergir da experiência, das necessidades concretas e da livre associação. O que se pode afirmar, com base na observação histórica, é que os seres humanos tendem à cooperação. O isolamento não é natural; a vida social precede o Estado.
Nesse sentido, os sindicatos aparecem como formas embrionárias de organização cooperativa, capazes de articular produção, solidariedade e gestão coletiva. Cada ramo da atividade social desenvolveria suas próprias formas de coordenação, comunicação e decisão, sem subordinação a um centro permanente de poder. Congressos e assembleias teriam caráter temporário e funcional; seus delegados não se converteriam em representantes profissionais. A permanência no poder é identificada, com precisão, como a semente de toda corrupção política.
A ausência de um poder central coercitivo não implica caos, mas responsabilidade compartilhada. Nenhuma força externa imporia decisões; a adesão seria voluntária. A ordem social deixaria de ser garantida pela ameaça e passaria a ser sustentada pela cooperação e pela opinião dos pares. É nesse ponto que o texto confronta diretamente um dos grandes mitos da modernidade: a crença de que, sem polícia e sem leis, os seres humanos se entregariam inevitavelmente à violência.
Parsons responde a esse medo com exemplos históricos e observações cotidianas. Sempre que uma restrição injusta foi removida — da liberdade religiosa ao fim da escravidão — não se confirmou o colapso moral anunciado pelos defensores da autoridade. Ao contrário, a ampliação da liberdade foi acompanhada por formas mais elevadas de responsabilidade. O problema não é a ausência de coerção, mas as condições materiais que moldam o comportamento humano. Onde há miséria, competição forçada e insegurança, proliferam o crime e a brutalidade; onde há acesso aos meios de vida, autonomia e dignidade, florescem outras formas de relação.
A crítica à propriedade privada ocupa um lugar central nesse argumento. Parsons distingue claramente entre posse e propriedade absoluta. O direito de usar e abusar, garantido pelo Estado e defendido pela violência, é incompatível com qualquer noção de justiça social. Ninguém pode ser dono legítimo de extensões imensas de terra ou de recursos vitais que não pode utilizar diretamente. A propriedade, tal como existe, é inseparável do aparato repressivo que a sustenta.
A proposta anarquista não é a negação do uso, mas a recusa da apropriação exclusiva. A terra, a água, a luz, os frutos do trabalho coletivo e do conhecimento acumulado pertencem à humanidade como um todo. Nenhuma medida exata pode determinar a contribuição individual em um processo produtivo que atravessa gerações. Por isso, a tentativa de remunerar cada pessoa segundo uma equivalência estrita de trabalho está condenada ao fracasso. Mais cedo ou mais tarde, a própria dinâmica social conduz à necessidade do comunismo, entendido aqui como uso comum dos meios de vida.
A reflexão sobre o trabalho e a riqueza reforça esse ponto. As grandes obras humanas nunca foram produzidas apenas por incentivo material. A criatividade, a invenção, o cuidado e a solidariedade respondem a motivações mais profundas do que o acúmulo de dinheiro. Quando a sobrevivência deixa de ser uma angústia permanente, quando o trabalho se torna limitado, saudável e socialmente útil, a riqueza perde seu poder de sedução. Ela deixa de ser um fim e passa a ser um meio abundante, quase irrelevante.
Parsons utiliza exemplos simples — a vida familiar, a partilha à mesa — para mostrar que a cooperação não é uma fantasia distante, mas uma prática cotidiana constantemente negada pelas estruturas sociais dominantes. A extensão desse princípio à sociedade inteira não exige uma transformação da natureza humana, mas das condições que a aprisionam.
Ao final do texto, o tom se intensifica. A autora se dirige diretamente à classe assalariada e denuncia o aprofundamento da exploração. Pequenas concessões salariais não alteram a lógica estrutural do sistema; a própria vida se torna cada vez mais cara. A escolha colocada é clara: ou a classe trabalhadora luta por tudo aquilo que produz, ou afundará em uma forma de escravidão ainda mais brutal do que as do passado.
Os Princípios do Anarquismo permanece, mais de um século depois, um texto de extraordinária atualidade. Não por oferecer respostas prontas, mas por desmontar as falsas evidências que sustentam a dominação. Lucy Parsons nos lembra que a liberdade não é um prêmio concedido por instituições benevolentes, mas uma prática coletiva, construída contra as estruturas que pretendem administrá-la. Em tempos de recrudescimento autoritário, mercantilização da vida e crise ecológica, sua reflexão ressoa como um convite urgente à imaginação política radical, enraizada na experiência, na solidariedade e na recusa de toda autoridade imposta.