O texto “A Anarquia Defendida pelos Anarquistas”, publicado em 1896 por Emma Goldman e John Most, é um manifesto vibrante que busca desfazer os equívocos, medos e caricaturas que cercavam — e ainda cercam — o anarquismo. Escrito em um momento de intensa repressão estatal, criminalização dos movimentos operários e demonização pública dos anarquistas, o ensaio funciona como uma intervenção pedagógica e combativa. Ele não apenas explica o que é a anarquia, mas também denuncia a violência estrutural do Estado, desmonta a mitologia da autoridade e reivindica a legitimidade da revolta.
Mais de um século depois, o texto continua a ecoar debates fundamentais sobre liberdade, poder, violência política e emancipação humana. Revisitar esse manifesto é revisitar a própria genealogia do pensamento libertário moderno — e compreender como Goldman e Most articularam uma defesa da anarquia que permanece atual, provocadora e profundamente necessária.
Aqui está a leitura desse texto num vídeo realizado pelo CCLA:
A palavra “anarquia” e a fabricação do medo
Goldman e Most começam pelo óbvio: a palavra “anarquia” foi deliberadamente transformada em sinônimo de caos, desordem e violência irracional. A mídia, os governos e os moralistas da época — assim como hoje — construíram uma imagem grotesca do anarquista: um sujeito sujo, violento, sedento por sangue e destruição. Essa caricatura não é inocente; ela serve para justificar a repressão e impedir que a população compreenda o conteúdo real da crítica anarquista.
Para os autores, a anarquia não é o caos, mas a união da ordem com a ausência de governo. É a ordem que nasce da liberdade, da cooperação voluntária e da organização espontânea — não da coerção, da polícia ou das leis impostas de cima para baixo. A verdadeira desordem, afirmam eles, é o mundo governado: guerras, miséria, desigualdade, prisões, exploração e violência institucionalizada.
A distorção do termo “anarquia” é, portanto, uma estratégia política. Ao demonizar a ideia, o Estado protege a si mesmo.
A crítica radical ao governo: toda autoridade é tirania
Um dos eixos centrais do texto é a afirmação de que não existe governo bom. Não se trata de uma crítica moral, mas estrutural: todo governo, por definição, implica a submissão de uma classe à autoridade de outra. Mesmo quando assume formas aparentemente benignas — democracia liberal, república constitucional, monarquia parlamentar — sua essência permanece a mesma: coerção, desigualdade e privilégio.
Goldman e Most lembram que a história dos governos é uma história de crimes: despotismos, oligarquias, plutocracias, guerras, perseguições religiosas, escravidão, genocídios. A autoridade política, longe de ser um instrumento de proteção, sempre foi um mecanismo de dominação.
A pergunta “como viver sem governo?”, frequentemente usada para desqualificar o anarquismo, é devolvida com ironia: se os homens são tão imperfeitos que precisam ser governados, quem são os governantes? Seriam eles mais sábios, mais virtuosos, mais iluminados? A ideia de que alguns devem governar porque são superiores é, para os autores, uma superstição herdada da Idade das Trevas.
Leis naturais versus leis humanas
Um dos argumentos mais interessantes do texto é a distinção entre leis naturais e leis humanas. As leis naturais — físicas, biológicas, sociais — são inevitáveis e universais. Não dependem de parlamentos, tribunais ou polícias. São parte da própria existência humana. Obedecemos a elas não por coerção, mas porque são inerentes à vida.
As leis humanas, ao contrário, são artificiais, arbitrárias e frequentemente contrárias às leis naturais. São criadas por minorias privilegiadas para proteger seus interesses. Por isso, dizem Goldman e Most, a humanidade sofre: porque vive sob regras que não correspondem às necessidades humanas, mas às necessidades do poder.
A verdadeira ordem social só pode surgir quando as relações humanas forem guiadas pelas leis naturais da cooperação, da solidariedade e da liberdade — não pela coerção estatal.
A miséria das massas e a hipocrisia da moralidade dominante
O texto também denuncia a moralidade cristã e burguesa que prega paciência, resignação e obediência aos pobres. Promete-se o paraíso aos miseráveis enquanto se mantém a estrutura que produz sua miséria. Para quem não tem pão, teto ou dignidade, promessas de salvação futura são insultos.
Goldman e Most observam que até pessoas inteligentes reconhecem os problemas do governo, mas não têm coragem moral para romper com os preconceitos que sustentam a autoridade. A crítica ao Estado exige não apenas razão, mas também ousadia — e é essa ousadia que o anarquismo reivindica.
A sociedade livre: organização espontânea e igualdade real
A visão anarquista apresentada no texto é profundamente positiva. Uma vez livres da autoridade externa, os seres humanos se organizarão espontaneamente em associações voluntárias, cooperativas e igualitárias. O trabalho será distribuído de acordo com as capacidades, e o consumo, de acordo com as necessidades. A ciência, a técnica e a arte serão libertadas das amarras do lucro e colocadas a serviço do bem-estar comum.
A mulher, afirmam os autores, será finalmente igual ao homem — não por concessão legal, mas porque a estrutura social que produz desigualdade terá sido abolida.
Essa sociedade não é utópica no sentido pejorativo; ela é uma projeção baseada na observação de que a cooperação é tão natural quanto a competição, e que a solidariedade é uma força evolutiva tão poderosa quanto o egoísmo.
O egoísmo como força social positiva
Um ponto provocador do texto é a defesa do egoísmo como algo natural e não necessariamente negativo. O egoísmo só se torna destrutivo quando as condições sociais permitem que alguns satisfaçam seus interesses às custas dos outros. Em uma sociedade anarquista, onde a sobrevivência depende da cooperação, o egoísmo se transforma em solidariedade prática: ajudar o outro é ajudar a si mesmo.
Essa visão rompe com a moralidade cristã da renúncia e com a moralidade burguesa da competição predatória. O egoísmo, reorganizado socialmente, torna-se uma força de vida.
A violência revolucionária: necessidade histórica, não culto ao terror
Goldman e Most enfrentam diretamente a questão da violência — tema que sempre foi usado para demonizar os anarquistas. Eles rejeitam a caricatura do anarquista armado com bombas e adagas, mas afirmam que a violência revolucionária é inevitável. Não por desejo, mas porque nenhum sistema de dominação cai voluntariamente.
A violência dos oprimidos, dizem eles, não é mais condenável do que a violência dos gregos em Termópilas, dos americanos em Bunker Hill ou de qualquer povo que lutou por sua liberdade. A história é clara: toda libertação envolve conflito.
A anarquia não busca a violência, mas reconhece que a violência é parte da luta contra a tirania.
Anarquismo como vanguarda da liberdade
O texto conclui afirmando que o anarquismo não é um movimento retrógrado, mas a vanguarda da liberdade humana. Ele expressa uma tendência histórica: a evolução da humanidade rumo à eliminação de todas as formas de escravidão e compulsão.
A revolução social é apresentada como inevitável e necessária. O comunismo libertário — entendido como a abolição da propriedade privada e da autoridade — é o horizonte natural dessa evolução.
Por que este texto importa hoje
“A Anarquia Defendida pelos Anarquistas” é mais do que um documento histórico. Ele é um lembrete de que:
- o Estado continua a se legitimar através do medo
- a mídia ainda fabrica caricaturas para despolitizar a crítica radical
- a violência estrutural permanece invisível enquanto a resistência é criminalizada
- a liberdade é sempre apresentada como perigosa
- a cooperação e a solidariedade continuam sendo forças subestimadas
Goldman e Most nos convidam a imaginar uma sociedade onde a liberdade não seja concessão, mas condição natural; onde a ordem não seja imposta, mas construída; onde a revolta não seja crime, mas expressão legítima da dignidade humana.
Para o CCLA, revisitar esse texto é reafirmar a importância de uma crítica libertária que não se intimida diante da repressão, que não aceita as narrativas do poder e que continua a lutar por uma liberdade plena, concreta e compartilhada.