O texto de Arthur Pye apresenta o socialismo libertário não como uma corrente marginal dentro da tradição socialista, mas como a expressão mais coerente de seus princípios fundadores. Sua força está em recolocar o socialismo no terreno da autogestão, da democracia direta e da luta contra todas as formas de dominação, recusando tanto o capitalismo quanto o poder estatal como estruturas incompatíveis com a liberdade coletiva.
A brochura (cuja leitura está disponível aqui abaixo) funciona, assim, como uma intervenção teórica que busca reorientar o debate contemporâneo, frequentemente capturado por leituras superficiais do termo “socialismo”.
Capitalismo, classe e a crítica libertária
Pye parte de uma definição simples e contundente: o capitalismo é um sistema baseado na exploração de classe, no qual a maioria é obrigada a vender sua força de trabalho para sobreviver. Essa relação estrutural produz desigualdade, concentração de poder e uma lógica de expansão permanente que alimenta guerras, colonialismo e destruição ecológica. A crítica libertária não se limita a denunciar esses efeitos; ela insiste que a própria forma de organização econômica — propriedade privada dos meios de produção, hierarquia empresarial, dependência salarial — impede qualquer possibilidade de liberdade real.
Ao contrário da social-democracia, que busca humanizar o capitalismo por meio de reformas, o socialismo libertário propõe abolir a divisão entre proprietários e não proprietários, substituindo empresas privadas por locais de trabalho autogeridos e o Estado por federações de conselhos populares. A luta de classes, nesse sentido, não é apenas econômica, mas um processo de construção de poder coletivo capaz de transformar radicalmente as instituições sociais.
O Estado como obstáculo, não como instrumento
A distinção entre socialismo libertário e socialismo de Estado é central no texto. Para Pye, o Estado não é um instrumento neutro que pode ser apropriado para fins emancipatórios. Ele é, por definição, uma estrutura de dominação baseada no monopólio da violência, na centralização do poder e na separação entre governantes e governados. A tentativa de impor o socialismo “de cima”, seja por via eleitoral ou militar, resulta inevitavelmente em novas formas de autoritarismo.
A análise da Revolução Russa é exemplar: embora tenha existido um movimento socialista genuíno, baseado em conselhos operários e comunas camponesas, ele foi rapidamente destruído pelo Estado bolchevique. A promessa de emancipação foi substituída por uma nova classe dirigente, e a autogestão foi substituída pela administração centralizada. Para Pye, esse padrão se repete em todas as experiências de “socialismo de Estado”, que deveriam ser entendidas como formas de capitalismo estatal.
Revolução desde baixo e construção de poder popular
A alternativa libertária é a construção de poder desde baixo. Isso implica organizar-se nos locais de trabalho, nos bairros, nas escolas, criando sindicatos combativos, assembleias populares e organizações comunitárias capazes de disputar o controle das instituições que moldam a vida cotidiana. A ação direta — greves, ocupações, autogestão territorial — não é apenas uma tática, mas um processo pedagógico que prepara as pessoas para governarem a si mesmas.
Pye insiste que não há atalhos: a emancipação das classes trabalhadoras deve ser obra das próprias classes trabalhadoras. A política representativa, ao delegar poder a líderes e partidos, tende a desmobilizar e a reforçar a dependência em relação ao Estado. A ação direta, ao contrário, produz sujeitos coletivos capazes de transformar suas condições de vida e de imaginar novas formas de organização social.
Opressão social e libertação integral
Um dos méritos do texto é integrar a luta de classes com as lutas contra racismo, patriarcado, colonialismo e LGBTfobia. Para o socialismo libertário, essas opressões não são secundárias nem derivadas automaticamente da economia. Elas são estruturas de poder que moldam a vida social e precisam ser combatidas de forma autônoma e articulada. Não há socialismo possível sem feminismo, antirracismo e anticolonialismo; não há classe trabalhadora livre se parte dela permanece subordinada.
Essa perspectiva amplia o horizonte do socialismo libertário e o aproxima de experiências contemporâneas como o zapatismo e a revolução de Rojava, onde a transformação social combina autogestão econômica, democracia direta e combate às opressões estruturais.
Uma política de liberdade em construção
O texto de Arthur Pye reafirma o socialismo libertário como uma política de liberdade, fundada na autogestão, na igualdade e na ação direta. Ele não oferece modelos prontos, mas princípios orientadores para construir movimentos capazes de transformar o mundo sem reproduzir novas formas de dominação. Em um momento em que o termo “socialismo” é frequentemente esvaziado ou distorcido, essa intervenção recupera sua dimensão revolucionária e aponta para um caminho que passa necessariamente pela construção de poder popular e pela recusa de qualquer forma de autoridade centralizada.