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Nota oficial do CCLA sobre o ataque estadunidense à Venezuela

CONTRA O IMPERIALISMO NA AMÉRICA LATINA

Vivo no monstro, e conheço-lhe as entranhas

José Martí

  • Sobre a agressão imperialista dos Estados Unidos contra a Venezuela

O Centro de Cultura Libertária da Amazônia (CCLA), fiel à sua trajetória de defesa da autonomia dos povos, da autodeterminação das comunidades e da luta permanente contra todas as formas de dominação — estatais, capitalistas, militares, religiosas ou partidárias — vem a público manifestar sua posição diante das recentes agressões imperialistas dos Estados Unidos contra a Venezuela, incluindo a captura e neutralização forçada de seu chefe de governo, Nicolás Maduro e da esposa dele, Cilia Flores.

O CCLA reafirma princípios que não dependem de conjunturas específicas: nenhum Estado, nenhum governo e nenhuma potência econômica tem legitimidade para determinar o destino de outro povo. A autodeterminação é um direito inalienável das populações, e somente elas podem decidir como enfrentar, transformar ou derrubar regimes que considerem opressores.

  • Contra o imperialismo, sempre

A história da América Latina é marcada por intervenções externas que, sob pretextos variados — combate ao comunismo, defesa da democracia, guerra às drogas, proteção de investimentos, “missões humanitárias” — serviram sistematicamente aos interesses estratégicos, econômicos e militares das grandes potências.

Essas intervenções deixaram um rastro de ditaduras, massacres, destruição ambiental, desestabilização social e aprofundamento das desigualdades.

Quando surgem novas denúncias de agressão dos Estados Unidos contra um país sul-americano, não estamos diante de uma exceção, mas da continuidade de uma longa tradição de ingerência.

O interesse dos EUA para com a situação na Venezuela está profundamente enraizado na própria natureza do capitalismo e no ecocídio (já perpetrado pelo Estado bolivariano há 26 anos) que a exploração do petróleo e do ouro promovem há décadas.

Nesses últimos meses, vimos a retomada de uma velha maneira de os EUA tratarem a América latina, renovando com força brutal a velha doutrina Monroe, já experimentada por Mc Kinley, Roosevelt, Nixon ou Reagan e, agora, por Donald Trump.

A queda do governo de Nicolás Maduro (através de um ataque típico de um Estado terrorista) , além de abrir o caminho para a direita mais agressiva, põe em dúvida a possibilidade de ouvir a voz do povo venezuelano e de garantir que seus interesses estejam no centro das atenções, vigiando o sistema imperialista que quer entrar com créditos do FMI e do Banco Mundial.

Para nós, qualquer ação militar, paramilitar, econômica ou diplomática que vise impor um governo, derrubar outro ou controlar recursos naturais de um território é uma violação direta da liberdade dos povos.

Não importa se o alvo é um governo de direita, de esquerda, populista, tecnocrático ou de conciliação: o imperialismo é sempre uma forma de dominação e, portanto, um inimigo da liberdade.

  • Nem com governos autoritários, nem com potências imperialistas

O CCLA não se alinha a governos, partidos ou lideranças que concentram poder, reprimem dissidências, sufocam organizações populares ou instrumentalizam o Estado para perpetuar privilégios: além do governo opressor, na Venezuela existe toda uma estrutura de opressão e nepotismo (aqueles que enriquecem – estima-se que um milhão de pessoas levem uma vida de super-ricos).

A nossa crítica vale, portanto, para governos de direita, de esquerda ou de qualquer matiz ideológica.

A crítica anarquista é coerente:

  • Rechaçamos o autoritarismo estatal, venha ele vestido de socialismo, nacionalismo, progressismo, liberalismo ou conservadorismo.
  • Rechaçamos o imperialismo, venha ele dos Estados Unidos, da Europa, da China, da Rússia ou de qualquer outro centro de poder.

Assim, ao mesmo tempo em que denunciamos a agressão imperialista — real, denunciada ou em curso — não oferecemos qualquer espécie de apoio político, moral ou simbólico a governos que se sustentam pela repressão interna, pela militarização da vida cotidiana, pela cooptação de movimentos sociais ou pela supressão das autonomias populares.

A coerência anarquista exige que não confundamos oposição ao imperialismo com apoio a Estados autoritários.

  •  A luta libertária não se curva a falsos dilemas

A narrativa dominante tenta nos empurrar para escolhas binárias:

ou apoiamos o governo atacado, ou apoiamos a potência agressora,

ou defendemos o Estado nacional, ou defendemos a intervenção estrangeira,

ou nos alinhamos a um bloco geopolítico, ou ao outro.

O CCLA rejeita essa lógica.

A luta libertária não se limita a escolher entre opressores.

A posição anarquista é clara:

estamos com os povos, não com os governos; com as comunidades, não com os Estados; com a autonomia, não com as potências; com a liberdade, não com as estruturas de dominação.

  • O imperialismo como expressão contemporânea do autoritarismo global

As políticas externas dos Estados Unidos em relação à América Latina — marcadas por sanções, bloqueios, operações clandestinas, apoio a golpes, financiamento de grupos armados e manipulação econômica — são frequentemente denunciadas por movimentos sociais, organizações de direitos humanos e pesquisadores independentes como expressões de autoritarismo global.

Quando uma potência militar utiliza sua força para moldar o destino de outros povos, estamos diante de uma forma de dominação que, para muitos analistas e movimentos, se aproxima de práticas historicamente associadas ao fascismo:

  • culto à força;
  • desprezo pela autodeterminação;
  • imposição de modelos econômicos;
  • desumanização de populações consideradas “obstáculos”;
  • militarização das relações internacionais.

O CCLA não afirma diagnósticos fechados sobre governos estrangeiros, mas reconhece que essas práticas são incompatíveis com qualquer noção de liberdade, democracia ou respeito aos povos.

  • Crítica libertária aos governos “progressistas” que reprimem suas próprias populações

A denúncia do imperialismo não pode servir como desculpa para silenciar sobre as práticas autoritárias de governos que se apresentam como populares, revolucionários ou progressistas.

O CCLA reafirma que:

  • não há socialismo verdadeiro quando o Estado concentra poder;
  • não há revolução quando a autonomia popular é substituída por burocracias partidárias;
  • não há emancipação quando movimentos de base são subordinados a lideranças centralizadas;
  • não há liberdade quando a dissidência é criminalizada.

A crítica libertária é dupla:

contra o imperialismo que tenta controlar povos e contra os governos que tentam controlar suas próprias populações.

  • A única legitimidade vem de baixo

Para o CCLA, a única força capaz de derrubar um governo opressor — seja ele de direita ou de esquerda — é o próprio povo organizado em suas comunidades, sindicatos, coletivos, assembleias e redes de solidariedade.

Nenhuma intervenção externa pode substituir a ação direta das populações.

Nenhuma potência estrangeira tem o direito de decidir o que é melhor para um país que não é o seu.

Nenhum governo pode reivindicar legitimidade se se sustenta pela repressão, pela violência estatal ou pela supressão das autonomias populares.

A libertação é sempre obra dos próprios povos.

  • Chamado à solidariedade internacionalista libertária

Diante das denúncias de agressão imperialista, o CCLA conclama coletivos, centros sociais, sindicatos combativos, movimentos de base e organizações libertárias de todo o mundo a:

  • fortalecer redes de solidariedade direta entre povos, não entre governos;
  • denunciar toda forma de intervenção militar, econômica ou política que viole a autodeterminação;
  • apoiar movimentos populares venezuelanos, colombianos, brasileiros, peruanos, equatorianos e de toda a região que lutam por autonomia real;
  • rejeitar tanto o imperialismo quanto o autoritarismo estatal local;
  • construir alternativas libertárias que não dependam de Estados, partidos ou potências.
  • Por uma Amazônia, uma Venezuela e uma América Latina livres de Estados, exércitos e dominação

A América Latina urgentemente precisa dar as mãos a todos os grupos anti-imperialistas no sentido de fortalecer o enfrentaremos à invasão de nossos territórios, o massacre de nossos povos e ao saque de nossas riquezas naturais. 

Algumas iniciativas já estão em curso. Uma delas é o fato de que o ELN anunciou que protegerá o governo bolivariano: o ELN está muito ativo em Catatumbo/Sul do lago, na fronteira com a Colômbia. A fronteira foi fechada há pouco tempo e é uma fronteira muito desorganizada, com muitos contrabandistas e tráfico de seres humanos, especialmente crianças menores de idade.

A nossa linha ideológica é diversa: eles defendem um governo, nós não, mas compartilhamos com o ELN a luta anti-imperialista estadunidense e o antifascismo. Assim, temos que permanecer de pé também no Brasil para ajudar as pessoas a decidirem livremente para onde ir e como organizar-se para construir alternativas autónomas a governos que acabam sempre traíndo as expectativas populares.

Dessa forma, o CCLA reafirma seu compromisso histórico com a construção de uma sociedade baseada na liberdade, na igualdade radical, na solidariedade e na autogestão.

Rejeitamos todas as formas de dominação — imperialistas, estatais, partidárias, militares ou econômicas.

Se há agressão imperialista, denunciamos.

Se há autoritarismo interno, denunciamos.

Se há manipulação geopolítica, denunciamos.

Se há repressão contra o povo, denunciamos.

Nossa posição é simples e inegociável:

estamos com os povos, nunca com os Estados.

O Centro de Cultura Libertária da Amazônia seguirá atuando, estudando, organizando e fortalecendo redes de resistência e autonomia, porque acreditamos que somente a ação direta dos povos pode construir um futuro verdadeiramente livre.

Dia 3 de Janeiro 2026

Centro de Cultura Libertária da Amazônia – CCLA

Pela autonomia dos povos. Contra todos os Estados. Contra todas as dominações

Para baixar aqui a nossa nota, cliquem na imagem: